espelho, espelho meu, existe alguém mais bobo do que eu?
foda como a gente se torna dependente do espelho. ainda mais quando o que o espelho mostra não é necessariamente a sua imagem, mas sim o que se deseja ser. ledo engano confundir imagem com reflexo. confundir o que se é com o estar. quem sou eu e quem é o espelho? qual a imagem qual o reflexo? qual o reflexo e qual a imagem?
as vezes o espelho também mostra a verdade. muitas vezes vivemos mais o reflexo do que o concreto… ou pior, a imagem do reflexo de um momento estático do tempo, de uma fatia de vida. esse reflexo se concretiza e torna-se uma verdade sempre, como uma fotografia eterna e dominadora, quando na realidade sempre foi somente uma interpretação.
e até que ponto a interpretação, condicionada por uma imagem de reflexo cristalizada no tempo, é capaz de orientar todos os passos de nossa vida? qual o momento do turn over? de quebrar o espelho dominador? de estilhaçar o reflexo que nos aprisiona? é possível quebrar um espelho sem se ferir? Quebrar um espelho sem dor?
o conforto do utero ou a dor do parto? por que o blackbird enjaulado quando solto acaba por voltar para a gaiola? qual o preço da liberdade? pílula vermelha ou azul?
se toda liberdade tem seu preço, a questão é saber se se está disposto a pagar pra ver. a cicatrizar as feridas e exibir as marcas como verdadeiras tatuagens, medalhas de guerra. Estamos na vida para isso – coletar tatuagens. hoje tenho mais feridas abertas do que tatuagens, mas posso garantir que parte delas estão finalmente cicatrizando.
e no reino do ego, no império da imagem onde quem guarda a coroa é uma criança, não há outra coisa a fazer senão gritar mais alto. e eu aqui, como que perseguindo sonhos, opto, olhos nos olhos, a me silenciar.
Palavras também refletem, por exemplo – você acaba de escrever um texto que reflete um momento seu que nenhum espelho seria capaz de mostrar. Abraço