nunca tive muita sorte com professores.
na minha arrogância púbere, excluindo o conhecimento específico da matéria, sempre me achei à altura deles todos, e dificilmente, mesmo hoje, sou capaz de reconhecer uma herança inspiradora dos meus mestres do segundo grau. uma exceção são as minhas últimas professoras de língua-portuguesa: selene e débora.
débora foi minha professora relativamente por pouco tempo. como era mãe de um dos alunos da sala, resistia em assumir o posto apesar de ser a melhor. além de ser uma excelente professora, era belíssima aos 40 e pelo que sei preserva-se linda aos 50. ela nos preparou para o vestibular, e posso dizer que ela desenvolveu em mim, de forma claramente behaviorista, uma louca obsessão pela gramática e pelos textos vestibularmente estruturados que até pouco tempo me perseguia.
fui treinado a escrever no formato aceito pela banca, tirei nota máxima em redação nas duas provas que prestei, mas como minhas aspirações literárias são mais abrangentes do que uma vaga na unifacs, felizmente me libertei dessa prisão lingüística. hoje escrevo.
já selene não era uma grande professora de línguas – precisava de um terapeuta – mas a ela serei eternamente grato por ter me apresentado a gabriel garcia marques e a machado de assis. através dela li “amor nos tempos de cólera” e desagüei em praticamente toda a obra de garcia marques. mas a sua psiquê frágil, sua insegurança inerente que a fazia repetir, como quem repete um mantra, as palavras e idéias da crítica literária sulista, fez com que ela nos ceifasse a possibilidade de despretensiosamente ler paulo coelho.
engraçado que, apesar de, em tese, me achar melhor que todos eles, também assumi a mordaz postura “não li, não gostei”, e para parecer inteligente, critiquei o mago. não era uma simples crítica! não senhor… “frases de traseira de caminhão!” balbuciava, “auto-ajuda disfarçada”, alertava. e por fim, por anos não li o brasileiro mais lido do mundo.
e era ai que queria chegar desde o início do texto: em paulo coelho.
como um glutão, acabei a pouco de devorar a biografia do mago, escrita por fernando morais. esta biografia só poderia ter sido escrita por ele, do contrário, ninguém acreditaria no que ali está escrito.
os fatos teoricamente comprovados da sua história de vida são tão surreais quanto fazer chover. e a falta de pudor que sempre teve em mentir para atingir seus objetivos, em ligar o foda-se para a verdade, faz com que o simples leitor, ou não leitor, duvide ainda mais de cada parágrafo do livro, e pior, faz com que se questione até mesmo se o biografo fora enganado. isto se não estivessemos falando do melhor biografo do país.
é neste misto de credibilidade e rigor histórico de fernando morais, e de inventividade e magia de paulo coelho, que o enredo é tecido de tal forma que nos faz, se não acreditar totalmente, pelo menos se envolver por inteiro na sua história de vida e na sua saga frenética para tornar-se um escritor famoso. é a história de um homem que sofreu mais da metade de sua vida, tido como louco e charlatão, fracassado e transtornado, que fez pacto com deus e o diabo, e que no final conseguiu o que sempre quis. chegou onde queria.
assim que anunciei o termino da leitura, meu irmão perguntou: – “então, fã ou crítico?”. nenhum dos dois, hoje, se ele estiver em paz consigo, eu o respeito.
paulo coelho nunca desejou ser jorge amado, borges ou flaubert. esta nunca fora sua pretensão. queria, sim, ser o mais lido e o mais famoso do mundo, e isto, com ou sem magia, ele conseguiu.
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Olha como é a vida…
Apenas um dia após você ter postado esse texto (e há anos sem conversar com você) estávamos sentados à beira de uma fogueira falando sobre o nome Pedro, o que nos levou a uma música de Raul e de PAULO COELHO!! E a primeira coisa que te falei quando tocamos no nome dele foi:
- Só agora, aos vinte e poucos anos, fui ler Paulo Coelho. Criei um bloqueio por causa de Selene.
Agora, aos pouquinhos, estou reconstruindo Paulo Coelho na minha cabeça, tentando ignorar aquala sutil e doce voz que ainda me diz a cada conto “Ele é um charlatão!”
Eu acho que vc não poderia ter colocado de maneira mais apropriada ele queria ser lido pelas massas e ser famoso. Assim como “darlene” – era essa a personagem da novela? – queria ser famosa.
Isto não faz, de jeito e maneira, Pualo Coelho um escritor brilhante, inspirador… Ele não é charlatão por escrever, mas sim por tentar fazer as pessoas acreditarem que aquilo ali pode não ser uma ficção de banca de jornal.
Bom post!
Oi, Pedro
Adorei seu texto. Gostei ainda mais de constatar o seu amadurecimento pessoal e intelectual ; seu estilo está leve,fluido, com uma escrita bem articulada, direta, sem “encheção (?) de linguiça”.
Favor encaminhar seus textos (antigos e futuros) diretamente para meu e-mail (magalhaes.cm@gmail.com).
Parabéns !!!
Claudia Magalhães (mãe de Pedro e Mariana)