Como transformar música em gravura? Som em cores? Ritmo em forma?
Só nesta última semana consegui ir a exposição Tripping the Art Fantastic, maravilhosamente psicodélica na Mr. MusicHead Gallery, Sunset Blvd, de um artista chamado Alan Aldridge. Sua especialidade: – traduzir música.
Segundo Nick Mason do Pink Floyd: “Who needs drugs when Alan is available to translate music into visual imagery?”
Sua grande obra foi o livro “The Beatles Lyrics Illustrated”, lançado em 1969 e hoje peça de colecionadores. Depois disso fez muitos outros trabalhos ainda com os Beatles, Rolling Stones, fez o celebre cartaz do filme de Andy Warhol, Chelsea Girls, capas de discos do The Who, Elton John, e Incubus.
Ano passado ele lançou uma biografia/exposição/coletanea de seus trabalhos chamada “Alan Aldridge – the Man with the Kaleidoscope Eyes”, que até pouco tempo estava exposta no Design Museum em Londres. Além das gravuras, o livro contem entrevistas incríveis com a maioria dos artistas com quem ele trabalhou.
Conhecer o trabalho de Alan Aldridge é reviver a necessidade que aquela geração tinha de traduzir visualmente a explosão de sensações que passaram a experimentar depois da descoberta dos efeitos lisérgicos da música e da liberdade.
A exposição esta somente esta semana na Mr. MusicHead Gallery, 7511 W Sunset Blvd, aqui em Los Angeles. Mais informações sobre o artista no seu site.
Deus adiante paz e guia,
Encomendo-me a Deus e a virgem Maria, minha mãe,
Aos doze apóstolos, meus irmãos,
Andarei neste dia, nesta noite
Com meu corpo cercado, vigiado e protegido
Pelas as armas de São Jorge
Jorge sentou praça na cavalaria
E eu estou feliz porque eu também sou da sua companhia
Eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge
Para que meus inimigos tenham pés, não me alcancem
Para que meus inimigos tenham mãos, não me peguem, não me toquem
Para que meus inimigos tenham olhos e não me vejam
E nem mesmo um pensamento eles possam ter para me fazerem mal
Armas de fogo, meu corpo não alcançará
Facas, lanças se quebrem, sem o meu corpo tocar
Cordas, correntes se arrebentem, sem o meu corpo amarrar
Pois eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge
A escolha das músicas de um repertório pode dizer muita coisa sobre a mensagem que o artista quer passar ao público durante seu show. Paul McCartney, 66, sabe disto, e tinha muito a dizer naquela primeira noite do Coachella Festival, no deserto californiano.
Já fazia muitos anos que Paul não tocava para um público tão jovem e diverso quanto o daquela noite. Nos 10 anos do Festival, Dividiu o lineup do dia com bandas como Franz Ferdinand, Morrisey, Ting Tings, Buraka Som System e Molotov. Sem dúvida não era um show qualquer pra um público qualquer.
O que esperar de uma apresentação de Paul? 4 ou 5 músicas do tempo do Wings, 5 ou 6 mais atuais da carreira solo e alguns dos seus hits preferidos dos Beatles, entre eles ‘Yesterday’ e ‘Hey Jude’. Nada mais, nada menos. Mas aquela não era uma noite qualquer, e Paul fez a mesma coisa de sempre, só que de um jeito diferente.
Como que deixando claro que tratava-se de Rock, começou com ‘Jet’ (Wings) e ‘Drive My Car’, uma escolha não obvia dos Beatles. Seguiu com ‘Only Mamma Knows’, ‘Flaming Pie’ e ‘Got to Get You Into My Life’, até que tocou a música que selou a paz entre ele e John Lennon no início da carreira solo de ambos: ‘Let Me Roll It”.
Já sem a jaqueta, ao piano tocou ‘Long and Winding Road’, visivelmente emocionado. Naquele noite, 17 de Abril, fazia 11 anos que Linda McCartney tinha falecido no deserto do Arizona. “She loved the desert, she loved Rock n’Roll, she loved it all.” E dedicou a música anterior e a seguinte, ‘My Love’, a Linda. “It’s an emotional day for me. That’s good… that’s ok.”
Se o deserto parece o lugar certo para fazer as pazes com o passado, Paul não queria perder a oportunidade naquela noite. Em ‘Here Today’, travou uma conversa imaginaria com Lennon, “you were in my song, here today”. Paul sabe que John Lennon, muito mais do que ele próprio, estaria totalmente em casa num festival como o Coachella.
Depois de mais um set com músicas de Fireman, Band on The Run, e até um vídeo com o semblante de Obama durante a música ‘Signs of Change’, Paul puxa um ukelele, instrumento musical parecido com uma guitarra havaiana, que lhe foi presenteado por George, e dedica a ele a música ‘Something’. Muitos não conseguiram conter as lagrimas na plateia de mais de 50 mil pessoas.
Com se John e George estivessem no palco, Paul ficou mais a vontade e tocou uma sequência de hits dos Beatles como ‘I’ve Got a Feeling’, ‘Paperback Writer’, ‘Let It Be’, ‘Hey Jude’, ‘Can’t Buy me Love’, ‘Lady Madonna’, ‘Birthday’ e ‘Yesterday’.
Num dos momentos mais emocionantes do show, tocou ‘A Day in the Life’, talvez a música que deixa mais clara a diferença entre os mundos de Paul e John e como o encontro disso tudo pode ser maravilhoso e apoteótico. Entoou o coro pacifista de Lennon ‘Give Peace a Chance’, transportando o público jovem do Coachella aos anos 70, e ao mesmo tempo reafirmando que cantar “paz e amor” jamais sairá de moda.
No último bis, ‘Helter Skelter’, ‘Get Back’ (“do you want to get back? I want to get back!”), ‘Sgt Pepper’ e ‘The End’. Nunca subestime a força de um Beatle, diziam os jornais americanos no dia seguinte.
Em festa com sua história e com as pessoas que fizeram parte dela, talvez a mensagem de Paul daquela noite pudesse ser resumida pelo seu último verso no show: “and in the end the love you take is equal to the love you make”. Paul McCartney deu e recebeu muito amor naquela noite no deserto de Coachella, noite que jamais poderia ser uma qualquer.
[ integra do artigo originalmente públicado na minha coluna no www.onspeed.com.br ]
O Hip Hop é a celebração da cultura de periferia que venceu. Por tudo e apesar de tudo, venceu, é dominante e extrapolou os limites do Harlem e da MTV. Hoje o palco da cultura hip hop é o mundo, e um dos mais interessantes retratistas dessa cultura e linguagem é o artista plástico Kehinde Wiley, que abriu aqui em Los Angeles, no sábado, sua exposição “World Stages: Brazil”
Nascido em Los Angeles, estabelecido no Harlem em NY, Wiley é negro e só pinta negros. Retratos heróicos do status e da força que sua raça tem na cultura contemporânea. As pinturas, em telas muitas vezes enormes, espantam pelo realismo, e tanto em relação às referencias quanto pela técnica, são influenciadas pelas obras de arte renascentistas. Mas dá um passo além dos italianos: – Wiley agora coloca o negro no centro do universo. Black is Power, Black is Beautiful.
E como todos que se propõem a colocar-se no centro do universo, o resultado acaba muitas vezes por soar arrogante. O que enquanto arte não é ruim. E aproxima ainda mais seu trabalho do Hip Hop, um genero que na sua própria definição “it’s about people who were left out, people who want to sort of push their egos out into the world and have this bombastic, self-pleasing, misogynistic presence”.
Nesta exposição com foco no Brasil, Wiley retratou negros e mulatos cariocas, utilizando suas próprias roupas, mergulhados em estampas vibrantes, na maioria florais, num universo plástico urbano e barato . Morro, praia, carnaval e Flamengo claramente presentes. O resultado visual é uma apoteose de cores e expressão. É Brasil, mas vai além.
Observando toda a obra de Wiley, que navega por inspirações como o Hip Hop, o Harlem, a Africa e agora esta série no Rio de Janeiro, fica claro que a unidade de seu trabalho esta na capacidade de captar no negro um certo olhar de orgulho, um olhar que provoca, desafia, brinca. Um olhar com a força e a arrogância dos vencedores. Diferente do mais comum em Salvador, Havana ou New Orleans, é um orgulho negro desgarrado da matriz africana. O mérito deste olhar é consequencia do agora, não de quanto eles têm no bolso, mas do que eles representam na cultura hoje. A cultura do gueto que venceu.
Kehinde Wiley The World Stage: Brazil
April 4 – May 30, 2009
Opening Reception Saturday, April 4th, 6 – 8pm
ROBERTS & TILTON
5801 Washington Boulevard
Culver City, California 90232
T 323.549.0223
[ publicado originalmente na minha coluna na www.onspeed.com.br ]
A revista OnSpeed foi lançada em maio de 1998 e foram 19 edições que reuniram trabalhos de jovens e consagrados artistas. Em pauta, moda, música, arte e noite, em edições bimestrais. Autoral e item de colecionador, virou referência para quem quer entender a São Paulo do final dos anos 90 ao começo dos 2000, e conhecer os artistas, DJs e modelos. Jorge Morábito é diretor de arte e abriu seu estúdio de design gráfico no começo dos anos 90, criando capas de discos, catálogos de moda e flyers de clubes noturnos. Hoje, desenvolve campanhas para o mercado de moda. Zeca Gutierres é jornalista que já trabalhou em publicações como o Jornal da Tarde e nas revistas Simples e Daslu. Hoje é editor do site Glamurama.
O que fazer numa época em que tudo já foi feito? E que, parece, se pode ser tudo, e tudo ao mesmo tempo? A resposta para nós, que há dez anos criamos a revista OnSpeed, é fazer aquilo que acreditamos, usando pessoas que admiramos. E não foi o que fizemos há dez anos? Neste novo formato, online, há moda, arte, música e humor. Com opinião. A idéia de colocar o site da OnSpeed no ar, depois de exatos dez anos do lançamento do projeto impresso, é para (re)abrir espaço para novos artistas, sem perder os ótimos colaboradores do passado.”
Amigos, a partir desta semana começo a colaborar com uma coluna semanal no site OnSpeed. Em tese uma coluna sobre Los Angeles. O primeiro texto foi publicado hoje: www.onspeed.com.br
mas algumas coisas que vi esta semana aqui nos estados unidos de alguma forma fizeram com que eu tivesse mais fé na humanidade, ou melhor, fé no poder que cada individuo tem a partir do momento que resolve exercê-lo.
primeiro, obama, sempre obama. sua mensagem para o povo mulçumano, em especial ao iran, supera qualquer expectativa que jamais pude ter em relação a atitude que se deseja de um líder global. é clara, simples, direta, olhos nos olhos, e acima de tudo: – inspiradora. atitudes como esta de obama demonstram que o homem mais poderoso do mundo pode colocar toda sua força bélica, economica e política de lado e utilizar-se apenas – para quê mais – do dialogo. nada mais. olhos nos olhos e diplomacia.
apesar de o iran ter respondido solicitando ações mais práticas, acredito que este video de obama foi o primeiro passo prático, como que para dar o tom que todos que participam do governo terão de usar nas relações com o iran. sem dúvida esta talvez seja a mudança mais importante: mudar o tom.
outro exemplo na Time desta semana: Dalia Ziada. a egipsia hoje com 26 anos, desenvolve um trabalho incrível desde criança pela liberdade de expressão das mulheres e de perseguidos políticos. ainda no início traduziu e distribuiu 2.000 copias de histórias em quadrinhos sobre martin luther king jr. e em novembro último promoveu o primeiro festival de cinema dos direitos humanos em cairo. na última hora ela foi impedida de realizar no teatro previsto, e alugou um barco para fazer o evento de qualquer jeito, mesmo que fora do território egipsio.
o que há em comum nos dois casos? a possibilidade de inspirar mais e mais pessoas a agir de forma diferente. seja mudando o tom do tratamento de um assunto, seja suavemente tratando de outro assunto. seja dando o primeiro passo e inspirando outras pessoas a fazer o mesmo.
por conta de todo ceticísmo que ainda há em mim, acabo por aguardar os fatos quando deveria já estar comemorando. fato que, tendo como horizonte uma utopia ou não, a mudança já começou.
somos vítimas de estereótipos culturais históricos. somos vítimas de um preconceito inconsciente colocado e reforçado diariamente em nossas mentes. como o doente que não mais sente a própria perna, nós continuamos a nos ferir, exatamente por não sentir a dor.
disfarçado de boas intenções, camuflado em sorrisos amarelos, transformado e renomeado ‘preconceito social’. vitimas de um perigoso e injusto silogismo. brancos, amarelos, pardos ou negros temos a ilusão de um controle que não temos.
esta consciência, que por um lado parece nos redimir, na realidade aumenta ainda mais nossa responsabilidade em relação ao futuro. se “liberdade é conhecer os condões que nos manipulam”(spinoza), redenção é de alguma formalutar contra eles.
“emancipate yourselves from mental slavery, none but ourselves can free our minds.”(marley)
a consciência do problema já está ai. a questão agora é: – o que vamos fazer com ela?