Arquivo para a categoria 'conficções'

13
nov
10

Em primeiro lugar.

Em primeiro lugar vinha Camões porque, como escrevi em O Ano da Morte de Ricardo Reis, todos os caminhos portugueses a ele vão dar. Seguiam-se depois o Padre António Vieira, porque a língua portuguesa nunca foi mais bela que quando a escreveu esse jesuíta, Cervantes, porque sem o autor do Quixote a Península Ibérica seria uma casa sem telhado, Montaigne, porque não precisou de Freud para saber quem era, Voltaire, porque perdeu as ilusões sobre a humanidade e sobreviveu ao desgosto, Raul Brandão, porque não é necessário ser um génio para escrever um livro genial, o Húmus, Fernando Pessoa, porque a porta por onde se chega a ele é a porta por onde se chega a Portugal (já tínhamos Camões, mas ainda nos faltava um Pessoa), Kafka, porque demonstrou que o homem é um coleóptero, Eça de Queiroz, porque ensinou a ironia aos portugueses, Jorge Luis Borges, porque inventou a literatura virtual, e, finalmente, Gogol, porque contemplou a vida humana e achou-a triste.

Saramago.

03
dez
09

e deixa eu viver minha loucura…

Muitas vezes, Pedro, você fala
Sempre a se queixar da solidão
Quem te fez com ferro, fez com fogo, Pedro
É pena que você não sabe não

Vai pro seu trabalho todo dia
Sem saber se é bom ou se é ruim
Quando quer chorar vai ao banheiro
Pedro as coisas não são bem assim

Toda vez que eu sinto o paraíso
Ou me queimo torto no inferno
Eu penso em você meu pobre amigo
Que só usa sempre o mesmo terno

Pedro, onde você vai eu também vou
Mas tudo acaba onde começou

Tente me ensinar das tuas coisas
Que a vida é séria, e a guerra é dura
Mas se não puder, cale essa boca, Pedro
E deixa eu viver minha loucura

Lembro, Pedro, aqueles velhos dias
Quando os dois pensavam sobre o mundo
Hoje eu te chamo de careta, Pedro
E você me chama vagabundo

Pedro, onde você vai eu também vou
Mas tudo acaba onde começou

Todos os caminhos são iguais
O que leva à glória ou à perdição
Há tantos caminhos tantas portas
Mas somente um tem coração

E eu não tenho nada a te dizer
Mas não me critique como eu sou
Cada um de nós é um universo, Pedro
Onde você vai eu também vou

Pedro, onde você vai eu também vou
Mas tudo acaba onde começou
É que tudo acaba onde começou
Meu amigo Pedro

Raul Seixas

04
out
09

ouroboros

Ouroboros_by_simonjova

que medo louco
que ilusão maldita
que me persegue
que acaba com minha manha
que destrói minha manhã

o que fazer quando remédios perdem o efeito?
o que fazer quando se têm a consciência de que não há jeito?

tudo começa, termina comigo
devorar-me, para renascer
morrer, para poder viver
digerir cada aspecto de mim
viver minha morte
ser minha vida

reconhecer cada traço
esquecer cada caracter

fora de si é metáfora para o encontrar
degustar
enfrentar
experimentar
expelir o pior de mim

afinal o que extirpo também não é parte de mim?
tudo começa onde termina

ciclo sem início
do submundo
emergir no consciente
me beliscar
mordiscar
engolir

me devorar
me fuder,
me comer,
querer,
me morder.

o medo só acaba
quando se digere a consciência
de que não há fim.

09
set
09

El Kindle de Arena

Infinite_by_emyy91

O conceito parece retirado de um conto de Borges: “A linha consta de um número infinito de pontos, o plano, de um número infinito de linhas; o volume, de um número infinito de planos, o hipervolume, de um número infinito de volumes…” Todo conteúdo de todos os livros e publicações do mundo disponíveis à distancia de um botão. Poderíamos estar falando do Kindle, mas infelizmente não é o caso.

O aparelho em si é genial. Poderia ser tudo isso que Borges sonhou. É mais fino e mais leve que qualquer livro de Gabriel Garcia Marques. A leitura, numa tela opaca branca com letras negras agride menos os olhos do que as páginas daquelas edições mais luxuosas da Cia das Letras, e é bem mais confortável do que um pocket book. A satisfação é instantânea: você quer o livro, encontra facilmente, compra e em pouco mais de 2 minutos ele já esta totalmente disponível para leitura.

O Kindle está para a literatura assim como o iPod para a música. Tudo num só lugar, organizado, disponível e prático. Lembro do tempo em que fiz um mochilão na Europa e que além de ter que escolher livro pelo peso, ia fatalmente os largando pelo caminho. Agora tudo cabe numa tela. Além de livros, também recebemos os jornais que assinamos todos os dias pela manhã via wireless. Revistas? Todas as semanas antes de chegarem às bancas. Blogs preferidos também podem ser acessados pelo livro de areia. Tudo cabe numa só tela.

Mas nem tudo são flores. O Kindle só utiliza conteúdo adquirido através da Amazon. Livros para Kindle tem preços apenas um pouco mais baixos do que os impressos em papel. Assinaturas em Jornais e Revistas em alguns casos são mais caras, em outros não. Blogs, que na internet são de graça, no site da Amazon são vendidos por uma assinatura de aproximadamente U$ 2,00 por mês. Arquivos em PDF, Word ou qualquer outro podem ser lidos também no seu Kindle, mas antes disso têm que ser processados pela Amazon por uma pequena taxa de U$ 1,99. Controle de qualidade?

Sinceramente não acho. Com o Kindle eu não posso emprestar o livro que comprei para um amigo, ele só funciona no meu aparelho e não pode ser compartilhado. Também não posso ler arquivos em PDF, Word, Text ou qualquer outro sem antes pagar o módico pedágio de U$ 1,99 para a Amazon. Além disso, o Kindle não me ajuda a completar a biblioteca de minha casa, ainda um rascunho do que era a biblioteca de meus avós e de meus pais, que hoje caberiam num HD Externo dentro de uma gaveta.

O mundo esta tornando-se digital, é um caminho sem volta. Mais cedo ou mais tarde todos teremos um eBook. Há outras opções menos fechadas no mercado como eReader da Sony, que já tem mais de 100 mil livros no acervo e que costura um acordo com o Google ou o cool e indie Cool-er, que aceita todos os tipos de arquivos, mas nada ainda tão prático e funcional como o Kindle.

Voltando a Borges: “O verão declinava e compreendi que o livro era monstruoso. De nada me serviu considerar que não menos monstruoso era eu, que o percebia com olhos e o apalpava com dez dedos com unhas. Senti que era um objeto de pesadelo, uma coisa obscena que infamava e corrompia a realidade.” Se a internet é realmente a nossa Biblioteca de Babel, o Kindle – apesar de nos mostrar um caminho – sem dúvida ainda não é a ferramenta certa para desvenda-la. Por enquanto, só nos resta esperar pelo inevitável.

25
ago
09

GiLuminoso

gil

A única coisa melhor que descobrir um disco,
é redescobrir uma disco.

Em 2006, num desses carnavais de salvador, recebi junto com os convites para o expresso 2222 o então disco novo de Gil. chamava-se GiLuminoso. Na época adorei o nome do disco, o cuidadoso encarte da biscoito fino com fotos de Mario Cravo Neto e o fato de ser um álbum voz e violão. Algo que parece obvio para um artista que não precisa de mais recursos do que isto para fazer um concerto, mas que até então no caso de Gilberto Gil era inédito.

De todas as músicas, naquele instante gostei de cérebro eletrônico, que conheci com Marisa e que nesse disco ganhou um arranjo inesquecível. Gravei o disco no itunes, e me esqueci dele. Aliás, o itunes tem dessas coisas: – ao nos permitir ouvir apenas as faixas, através de seleções ou playlists, faz com que a gente se esqueça do todo que é o álbum. E ai ouvimos “tomorrow never knows” e esquecemos de “revolver”, ouvimos “come as you are” e esquecemos de “nevermind”, ouvimos “os alquimistas estão chegando” e esquecemos da “tábua de esmeralda”. Sem muito cuidado, fiquei com o “cérebro eletrônico” e esqueci do GiLuminoso.

Só que de uma forma ou de outra, sempre acabava por voltar a ele.

Gosto de montar repertórios e trilhas sonoras, seja para programas de televisão, peças de teatro, uma festa qualquer ou para minha própria vida. Tornou-se um habito, quase uma terapia, buscar as músicas ideais para cada momento. E anos depois daquele carnaval de 2006, numa madrugada em Los Angeles, eu estava com o refrão “preciso aprender a ser só” na cabeça, e não conseguia achar a melodia. Imaginei que pudesse ter essa música no meu computador e digitei as palavras no itunes. Eis que como num passe de mágica elas se re-arrumam numa forma que para mim fez muito mais sentido: “eu preciso aprender a só ser”, Gilberto Gil, GiLuminoso. Deixei o disco tocar.

Naquela noite eu estava ali, mas minha mente estava em outro tempo, passado ou futuro, em outro momento, que virtualmente não existia. E já na segunda-faixa, Gil me lembra que “o melhor lugar do mundo é aqui e agora”. uma música gravada em 77, Refavela, mas que fazia todo sentido para mim naquela noite de 2009. A faixa seguinte, Copo Vazio, gravada anteriormente por Chico, me diz que “é sempre bom lembrar que um copo vazio esta cheio de ar”. Nada é tão superficial ou vazio como pode parecer, e aquele álbum tinha ainda mais coisas para me dizer.

Como quem está num retiro espiritual, descubro a importância das coisas banais, aprendo a deixar o seu amor livre para amar, mesmo que, tudo esteja apenas por um segundo (tempo rei). entendo o som da pessoa, e mais que isso: – comprovo que toda pessoa boa, de fato, soa bem.

completamente conectado ao mundo por um computador, percebo que apesar disto não será o cerebro eletrônico que me dará socorro. e nem sei se isso importa, pois se a raça humana é apenas uma semana de trabalho de deus, qual seria o significado da minha existência? não importa. E num mundo de tantas personalidades, nicknames e usuários de redes sociais, Gil nos fala que o divino é saber o que divide o você do mundo do você do ser (você e você).

Aquelas músicas não estavam organizadas por acaso. Ali esta a gênese da espiritualidade de Gil espalhada por diversas músicas de sua carreira. “não se meta a exigir do poeta que determine o conteúdo de sua lata. na lata do poeta tudonada cabe” (metafora), e talvez por isso o disco tenha sido organizado e produzido por um outro, no caso Bené Fonteneles, também responsável pelo livro homônimo gi.luminoso. É dele também a sugestão de que o poeta cantasse distraidamente, como bate o coração (o compositor me disse), voz e violão. Bené conseguiu passar os olhos sobre a obra de Gil e pinçar instantes de luminosidade, executados por gil com paz e espírito, montando um álbum de fato capaz de nos elevar espiritualmente, um álbum de fato: – luminoso.

Agora, quase 4 anos após o lançamento, Gil Luminoso vira o tema do show de sua nova turnê, quando Gil esta no palco da forma mais simples possível, acompanhado apenas do seu violão e do seu rebento, Bem. Não vi o show ainda, mas tudo indica que seja uma aula musicada de espiritualidade, pois só através da música aprende-se com o coração.

.

01
ago
09

Wilde, louco e santo

Oscar_Wilde

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.

A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.

Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.

Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.

Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.

Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.

Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que “normalidade” é uma ilusão imbecil e estéril.

Oscar Wilde

17
jul
09

mind set

sBeataful

acordo cedo.

àquele dia não seria diferente.
abro meus olhos, tento adivinhar as horas.
torço para que seja bem tarde.
rezo para que metade do dia já tenha se esvaído
mas não há surpresa.

espero um sinal,
abraço o travesseiro.
minha mente acelera, meu corpo não.
minha alma inquieta,
meus músculos: intactos.

nada funciona,
sem forças para dormir,
nem o querer acordar.
o dia começa
com a mesma sem vontade
com que termina.

“I wonder should I call you
but I know what you would do.”

não há o que fazer,
não há o que dizer.
meu dia começa,
quando o seu termina.

30
jun
09

Thriller

MJ

Não gosto do Michael Jackson.

Para ser ainda mais sincero, ele desapareceu para mim depois das inúmeras acusações e suspeitas sobre seu relacionamento com as crianças que ele levava para conhecer o rancho Neverland, sua casa e parque de diversões. Mudar de cor, contrariar dívidas e mais dívidas, expor seus filhos, muito disso pode ser perdoado, mas há limites.

Já não posso falar o mesmo em relação a sua obra. Michael Jackson foi a primeira criança e o primeiro negro a tornar-se universalmente POP. Ele mudou todos os padrões da industria do entretenimento. Nunca ninguém, nem mesmo os Beatles, conseguiram chegar a marca estimada de 70 milhões de discos vendidos em todo o mundo com apenas um album, Thriller, em 1982.

Sempre muito tímido fora dos palcos, quando entrava em cena se transformava. Não era mais Michael, o menino inseguro com medo de crescer. Era Michael Jackson, o Rei do Pop. Voz, dança, movimentos, passos, tudo era novo e tudo era só dele. Reconhecido pelo Guiness Book como o mais bem sucedido astro do entretenimento de todos os tempos, com 13 grammys e 750 milhões de discos vendidos em sua carreira, Michael Jackson é imbátivel. Mas há o outro Michael.

Quando saiu a notícia de que ele teria tido um enfarte fulminante e estava internado a poucos metros de minha casa, no hospital da UCLA, não pensei duas vezes e fui até lá acompanhar este momento inesquecível para a história da Música.

Além do circo da imprensa, havia muitos fãs ao redor, com maquinas digitais, telefones celulares, captando imagens, informações e transmitindo pelo mundo através de suas respectivas redes sociais. Pequenos iPods com caixas de som portáteis por toda parte tocavam músicas que foram lançadas há pelo menos 25 anos.

Vi um grupo de estudantes, todos com não mais de 15 anos de idade, repetindo a coreografia de Thriller em frente ao hospital. Crianças vestidas com chapéus e luvas passeavam no colo dos seus pais. Pessoas do mundo inteiro com cartazes, capas de discos, velas acesas. Um pouco mais a frente, um sósia chamava a atenção de todos ao repetir o clássico moonwalk.

Por que estavam ali? Por gostarem de Michael Joseph Jackson? Acho que não. Aquele ser humano talvez não merecesse tudo isso. Estávamos ali para nos despedir do homem e abraçar sua obra. Como todos, ele errou muito, mas sua música, dança e performance estão acima de qualquer julgamento moral ou criminal. É arte e é para sempre. Na quinta-feira Michael libertou sua obra dele mesmo.

19
jun
09

um segundo de arte

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um segundo de arte
é suficiente.

êxtase,
emoção,
estética,
olhar.

como superar
aquele instante de luz?

e mais: -

o que esperar
do momento seguinte.

melhor,
maior,
diferente?
não importa.

um segundo de arte,
é um nome para sempre.

não me preocupa mais
como viver,
o que viver,
com quem viver.
viver de quê?

só importa
só viver.

pois de segundo em segundo,
se cria a eternidade.
de instante em instante,
se faz arte.

quando a obra torna-se maior que a vida,
somos verdadeiramente livres.

27
mai
09

O Corpo – Foucault

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Basta eu acordar, diz Foucault, que não posso escapar deste lugar, o meu corpo.

Posso me mexer, andar por aí, mas não posso me deslocar sem ele. Posso ir até o fim do mundo, posso me encolher debaixo das cobertas, mas o corpo sempre estará onde eu estou. Ele está aqui, irreparavelmente: não está nunca em outro lugar. Meu corpo é o contrário de uma utopia. Todos os dias, continua Foucault, eu me vejo no espelho: rosto magro, costas curvadas, olhos míopes, nenhum cabelo mais… Verdadeiramente, nada bonito. Meu corpo é uma jaula desagradável. É através de suas grades que eu vou falar, olhar, ser visto. É o lugar a que estou condenado sem recurso.

É possível que contra esse corpo tenham nascido todas as utopias, dele nasce a utopia original –a de um corpo incorporal: o país das fadas, dos elfos, dos gênios, onde as feridas se curam imediatamente, onde caímos de uma montanha sem nos machucar, onde podemos ficar invisíveis.

Há outra utopia dedicada a desfazer o corpo é o país dos mortos. A múmia é o corpo utópico que desafia o tempo. Há as pinturas e esculturas dos túmulos, que prolongam uma juventude que nunca vai passar, que será eterna. Meu corpo se torna sólido como uma coisa, e eterno como um deus.

A outra, a maior utopia criada contra o corpo é o grande mito da alma, que funciona maravilhosamente dentro do meu corpo, mas escapa dele. É bela, pura, branca, ao contrário do meu corpo. Durará para sempre. É meu corpo luminoso, purificado.

Assim, pela mágica dessas utopias, meu corpo pesado e feio desaparece magicamente. Recebo-o de volta fulgurante e perpétuo.

Mas meu corpo, nele mesmo, seus recursos próprios de fantástico. Tem lugares sem-lugar. Tem seus lugares obscuros e praias luminosas. Minha cabeça é uma estranha caverna, com duas aberturas, meus olhos. E, se as coisas entram na minha cabeça, ficam ao mesmo tempo fora delas.

Corpo incompreensível, penetrável e opaco, aberto e fechado: corpo utópico. Absolutamente visível –porque sei o que é ser visto e ver os outros. Mas esse corpo é também tomado por uma certa invisibilidade: minha nuca, por exemplo. Minhas costas: conheço seus movimentos, sua posição, mas não as vejo. Corpo que é um fantasma, que só posso ver pelo truque, pela miragem de um espelho.

Esse corpo não é uma coisa: anda, mexe, quer, se deixa atravessar sem resistências por minhas intenções. Só quando estou doente –dor de estômago, febre–  ele se torna coisa, opaca, independente de mim.

Não, o corpo não precisa de fadas e almas para ser utópico, visível e invisível, transparente e concreto. Para que eu seja utopia, preciso apenas ser… um corpo. As utopias não apagam o corpo: nasceram dele, para só depois, talvez, voltarem-se contra ele.

Uma coisa, entretanto, é certa: o corpo humano é o ator principal de todas as utopias. O sonho de um corpo imenso, o mito dos gigantes, de Prometeu, é uma utopia. O sonho de voar também.

O corpo é também ator utópico quando se pensa nas máscaras, na tatuagem, na maquiagem. Não se trata, aqui, propriamente, de adquirir um outro corpo, mais bonito ou reconhecível.

Trata-se de fazer o corpo entrar em comunicação com poderes secretos, forças invisíveis. Uma linguagem enigmática e sagrada se deposita sobre o corpo, chamando sobre ele o poder de um deus, a força surda do sagrado, a vivacidade do desejo. Fazem do corpo o fragmento de um espaço imaginário, que entra em comunicação com o universo dos outros, dos deuses, das pessoas que queremos seduzir.

O corpo é arrancado de seu espaço próprio e arremessado a um outro espaço. As vestimentas religiosas, por exemplo, fazem o indivíduo entrar no espaço cercado do sagrado, ou na comunhão da sociedade. Tudo o que toca no corpo, uniformes, diademas, faz florescerem as utopias internas do corpo.

E a carne nela mesma pode ser também utópica. Faz o corpo voltar-se contra si: o outro mundo, o contra-mundo, penetra nesse corpo, que se torna produto de seus fantasmas: o corpo de um dançarino, por exemplo, é um corpo dilatado pelo espaço –espaço que lhe é interior e exterior ao mesmo tempo. O corpo do mártir acolhe a dor e a salvação. O corpo de um drogado, de um possuído, de um estigmatizado, recebe em si o que lhe é exterior.

Bobagem dizer portanto, como fiz no início, que meu corpo nunca está em outro lugar. Meu corpo está sempre em outro lugar. Está ligado a todos os outros lugares do mundo, e está num outro lugar que é o além do mundo. É em relação ao corpo que existe uma esquerda e uma direita, um atrás e um na frente, um embaixo e um em cima.

O corpo está no centro do mundo, nódulo utópico a partir do qual penso, sonho, me comunico. O corpo, como a Cidade de Deus, não tem lugar, e é de lá que se irradiam todos os lugares possíveis.

Apenas o espelho e o cadáver selam e calam essa voragem utópica. Os dois estão num outro lugar impenetrável, mas nesse momento já não sou eu mesmo. Para que eu seja eu mesmo, no meu corpo, sem utopia, é preciso uma situação bem definida. Só o ato amoroso, quando nos entregamos a ele, acalma a utopia do nosso corpo: por isso é tão próximo, no imaginário, ao espelho e à morte. É porque só no amor o meu corpo está AQUI.

fonte: blog marcelo coelho – folha




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