Posts Categorizados ‘conficções

04
out
09

ouroboros

Ouroboros_by_simonjova

que medo louco
que ilusão maldita
que me persegue
que acaba com minha manha
que destrói minha manhã

o que fazer quando remédios perdem o efeito?
o que fazer quando se têm a consciência de que não há jeito?

tudo começa, termina comigo
devorar-me, para renascer
morrer, para poder viver
digerir cada aspecto de mim
viver minha morte
ser minha vida

reconhecer cada traço
esquecer cada caracter

fora de si é metáfora para o encontrar
degustar
enfrentar
experimentar
expelir o pior de mim

afinal o que extirpo também não é parte de mim?
tudo começa onde termina

ciclo sem início
do submundo
emergir no consciente
me beliscar
mordiscar
engolir

me devorar
me fuder,
me comer,
querer,
me morder.

o medo só acaba
quando se digere a consciência
de que não há fim.

17
jul
09

mind set

sBeataful

acordo cedo.

àquele dia não seria diferente.
abro meus olhos, tento adivinhar as horas.
torço para que seja bem tarde.
rezo para que metade do dia já tenha se esvaído
mas não há surpresa.

espero um sinal,
abraço o travesseiro.
minha mente acelera, meu corpo não.
minha alma inquieta,
meus músculos: intactos.

nada funciona,
sem forças para dormir,
nem o querer acordar.
o dia começa
com a mesma sem vontade
com que termina.

“I wonder should I call you
but I know what you would do.”

não há o que fazer,
não há o que dizer.
meu dia começa,
quando o seu termina.

13
nov
08

outro

acordei e não era eu.

o quarto estava totalmente claro. reluzente. as paredes refletiam o sol que já devia ser de mais do que do meio da tarde. mas ainda era forte, e ainda parecia quente. não tinha muita certeza de onde exatamente havia dormido. ao meu lado um espaço vazio que havia sido ocupado por alguém. ainda quente.

abri os olhos lentamente, como quem abre as cartas numa mesa de poker. fiz esse movimento tão densamente, tão não reflexo, que nem me dei conta de que o verdadeiro mistério era outro. passei batido tentando ainda descobrir o obvio.

levantei, abri a porta e estranhamente reconheci a casa. tudo estava onde estaria. fisicamente nada mudara de lugar. fisicamente tudo estava como deveria estar. caminhei pelo corredor. na parede, fotografias de um tempo que não lembro, de uma infância que não vivi, de amores que não amei e de dores que não sofri.

reconheci o espaço, me perdi no tempo. estava em algum lugar entre o lembrar e o esquecer. entre a dor e a saudade. entre o ser e o não ser. como diria pessoa, num intervalo entre mim e mim.

era sexta-feira, amanheci vestido de preto. corri para o banheiro, olhei no espelho, e para minha surpresa era minha imagem que estava ali me espelhando. nossa imagem é sempre um reflexo do que somos, e apesar de ela estar ali, me fitando com olhos lassos, ainda não tinha certeza de que do outro lado do espelho estava realmente eu.

como quem não reconhece a própria loucura, guardei comigo a interrogação, e fui buscar a resposta nos outros. num embate entre imagem e reflexo, um terceiro ponto sempre parece ser o caminho mais fácil, o que de forma alguma significa que seja o mais seguro.

como de costume, segui por este atalho, mesmo não sabendo ao certo onde ele iria me levar. avancei. naquele momento a resposta claramente parecia estar no outro. naquele momento percebi que, para me encontrar, havia deixado de ser eu. eu era o outro.

.

18
out
08

abstinência

estamos só.

companhia é ilusão.
amor é ópio.
paixão, cocaína.

família é consolo.
amizade, anfetamina.
sexo é armadilha.

trabalho é cortina,
sucesso é fumaça.
dinheiro, aspirina.

para quem não tem caminho,
a solidão é melhor companhia.
para que não tem fé,
simplesmente dói.

.

12
out
08

reflexo


àquele dia fui só reflexo.

reflexo de um sentimento. de uma percepção.
só reflexo.

são reveladores,
não verdadeiros,
são espelho.

mostram o que não queremos ver.

apesar de serem mentira
chegam com a força da verdade.

o reflexo é apenas reflexo,
mas dói,
e fere.

.

23
set
08

you got the gold

não economizo nas palavras.
por outra, meu verbo é desperdício.

you got my heart, you got my soul,
you got the silver, you got the gold.

custa acreditar que o silêncio seja verdadeiro,
é estratégico.

um quê maquiavélico,
a cortina escondendo o palco.

o não dizer para não dizer.
o anti-espontâneo.

não consigo não dizer.
corro o risco.

minha ansiedade é ânsia.
e é natural.

pura.

vomito o que sinto sob quem amo,
e sob quem desprezo.

que o outro faça o devido filtro,
como tantas vezes sou obrigado a fazer,

simplesmente para deixar as coisas como estão
como são.

let it bleed.

.
16
set
08

caminho


simplesmente caminho.

sigo numa realidade virtual como se a manhã de segunda-feira nunca chegasse. troco os dias pelas noites, e as noites pelos dias.

vivo a vida dos outros. sonho os sonhos dos outros. ganho dinheiro para os outros. tudo numa corrente real, dolorosa e inevitável de inconsciência.

anfetamina para o sol, soníferos para a lua. a taquicardia é a maior prova de que sou vivo, é o sinal mais físico da possibilidade de morte.

durmo durante a manhã. hiperativo pela tarde. frito à noite. a madrugada é uma incógnita sempre.

vislumbro saídas, fugas, atalhos e caminhos. no fim, só caminho.

haverá salvação?

if you don’t know where you’re going,

any road will take you there.

opções, decisões, encruzilhadas.

tudo ilusão

pois no fim, só há um caminho.

.
24
jul
08

conficções e buda||pest

amigos

acabei de finalizar o primeiro conto escrito on line, e uma das minhas primeiras experiências na ficção. chama-se buda||pest e, apesar de ser um conto, foi consebida em 4 “capítulos”.

segue links para quem quiser ler na ordem:

- buda||pest I

- buda||pest II

- buda||pest III

- buda||pest IV

espero que gostem.

Pedro

24
jul
08

buda||pest – IV


nunca mais a vi.

depois daquela viagem nunca mais a vi. hoje, na mesma cidade de 10 anos atrás, vejo que sempre ficou em minha boca o gosto de ter perdido o destino. sem dúvida eu não dava chances para àquelas que poderiam ser as mulheres de minha vida. mais do que isso. depois daquela viagem ficou claro que eu não dava chance ao amor.

minha vida seguiu em relacionamentos rasos, repetições infames e eventualmente divertidas como a sessão da tarde. qualquer risco de amor e o coração me espancava, me enxotava para a rua, para a noite, para o vazio. um alarme que soava antes que eu me desse conta do “risco” de dar certo.

eu não entendia. procurava entender, mas não entendia. procurava vencer, mas perdia. no final, me entregava, me recolhia. finjo ter paciência. como aquela sereia houve outras. como aquele destino que perdi, também houve outros. e cá estou eu, só. o tempo não para. e sempre foi assim, desde criança.

talvez por isso tenha uma relação estranha com crianças. tenho medo.

todos conhecem a crueldade da infância, mas a impressão que tenho é de que no meu caso houve um exagero. não lembro de amigos. não lembro de inimigos. não lembro de vitórias nem de derrotas. não vivi amores, não vivi intrigas. tenho a nítida impressão de não ter vivido esta etapa de minha vida. e não há nada mais cruel do que a nulidade.

contudo, ironicamente, ainda queima viva em minha carne as memórias inexistentes de minha infância. a criança que pensa que não existiu vive ainda enterrada dentro de mim. e mesmo hoje, quando completo 33 anos, ela continua a me acompanhar. não desiste. é esta criança, e não eu, que tem medo de outras crianças.

a neblina ficava cada vez mais espessa, uma cortina de fumaça. o frio tremia meus músculos, espremia meus ossos, como para me lembrar de que ali ainda havia um corpo. a fumaça do cigarro não se misturava com a névoa, diferente dos meus pensamentos, que estavam em todo lugar, me sufocando. a lua, nossa senhora do silêncio, brilhava. naquele inferno gelado consegui um segundo de paz.

quando surgiu uma criança. devia ter algo em torno de 11 anos. poderia ser de qualquer nacionalidade ou etnia, inclusive húngara. estava só. solidamente só. ameaçadoramente só. como eu, só. embora hoje em dia não se diferencie mais roupas de adultos de roupas de crianças, aquele menino vestia uma roupa adequada a sua aparência de idade. ainda não consigo ver seu olhar, mas ele possui um passo decidido. diferente de mim, não parece apavorado.

quando o avistei, numa das extremidades da ponte, vindo de buda para peste, eu ainda permanecia no centro. no meio do caminho. sem saber ao certo para que lado seguir. não sabia se ia de encontro a criança, seguindo meu caminho original, se voltava para peste e, com passo acelerado, evitava o encontro, ou se permanecia onde estava. permaneci. alguma coisa me fazia ficar.

a criança se aproximou. possuía olhos azuis e não tive medo. por outra, tive paz. me encarou com um olhar rígido que não me pareceu ameaçador. seus olhos diziam tudo. estava em paz, o que não quer dizer que não houvesse tensão. de repente, pôs-se a falar húngaro, um idioma que eu não entendo, mas a única língua que o demônio respeita. e falava diretamente com meus demônios, com cada um deles.

desabei a chorar, como uma catarse. não entendia uma palavra do que estava sendo dito, e, sinceramente, não precisava entender. intuitivamente compreendi que não precisava mais escolher o deserto.

se era deus ou o diabo não sei. vinha de buda, o que é um bom sinal. mas não sei se os demônios respeitam deus tanto quanto a si próprios. daquele dia em diante não tive mais medo do amor. a criança perdeu o medo.

.

23
jul
08

buda||pest – III


coincidências como essas me assustam.

nunca esteve tão claro e tão próximo. não era amor, não era carinho ou caridade. era pura atração. simplesmente atração.

já estávamos a horas na cantina e de repente resolvemos todos sair e andar pela cidade. estranhamente não atravessamos ponte alguma. estávamos felizes em peste. fomos caminhando pela margem do danúbio em direção ao parlamento.

alguém tinha um baseado. minto. todos tinham. fomos fumando tranqüilamente pelas ruas, como se estivéssemos em amsterdam. nada mais ridicularmente natural do que a maconha. não consigo entender a caretice de uma sociedade que se droga diariamente com álcool, política, cigarro e lixo de celebridades. anfetamina, cafeina, sibutramina, cocaína e vitamina. energéticos, diuréticos e pretéritos. loucura maior neste escuro perseguir a maconha. não sou defensor, mal sei fechar, fumo socialmente. mas não sou idiota.

chapados e abraçados, atravessávamos a cidade. não chegamos a ir até o parlamento, resolvemos voltar. queríamos continuar juntos, bebendo e felizes. paramos num pub, numa rua paralela a vaci utca.

não havia nada de especial no pub a não ser o fato dele parecer irlandes e de estar aberto. eram grandes mesas, com sofás e cadeiras. o balcão ornamentado com garrafas de bebidas e máquinas de chopp era igual ao balcão de qualquer outro pub irlandes. atrás dele uma típica húngara. pequena, magra, cabelos pretos ondulados e escorridos. olhos fundos e nariz oblíquo. parecia saída de um campo de concentração. sentamos, e ao meu lado sentou a pequena sereia.

ela olhava para mim como se esperando algo. um sinal, um movimento, uma atitude. já estavamos conversando todos ha horas. tudo estava claro, evidente. tentei direcionar a minha atenção ao centro da mesa como para ganhar tempo. continuei no mesmo ritmo da tarde, contando histórias, bebendo intensamente. a sereia me olhava apaixonada. quanto mais desviava a atenção, mais ela me encarava. sem perceber, eu estava cantando para ela e não o oposto.

qual o problema se, afinal, eu também a desejava? o que me impedia se, afinal, eu a queria e sabia que poderia tê-la quando quisesse?

a história se repete. nesses momentos sinto-me como um paciente em coma, como um interno dopado, que vê a vida passando ao redor mas que não consegue dominar o próprio corpo, orientar os movimentos, espectador da vida a partir de um veículo que não pode ser dirigido. por inabilidade, inexperiência, carma ou o que quer que seja, o fato é que nem minha mente nem minhas emoções dominavam aquele corpo que inesperadamente tornara-se inerte.

se a dor é real, o coração não batia, mas sim me espancava por dentro. uma bomba atômica explodindo dentro de um corpo que simplesmente não responde.

naquela noite, mais uma vez, fugi.

[ ... ]



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