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06
out
08

sobre fernando pessoa


amo portugal e portugueses. amo saramago e fernando pessoa.

há pouco menos de um mês saramago nos presenteia diariamente com textos curtos em seu blog.

um privilégio para quem, como eu, devora seus livros, suas frases e entrevistas.

hoje ele escreveu um post incrível, sobre outro lusitano ilustre, que preciso compartilhar com vocês.

bom apetite.

Sobre Fernando Pessoa

Outubro 5, 2008 by José Saramago

Era um homem que sabia idiomas e fazia versos. Ganhou o pão e o vinho pondo palavras no lugar de palavras, fez versos comos os versos se fazem, como se fosse a primeira vez. Começou por se chamar Fernando, pessoa como toda a gente. Um dia lembrou-se de anunciar o aparecimento iminente de um super-Camões, um camões muito maior que o antigo, mas, sendo uma pessoa conhecidamente discreta, que soía andar pelos Douradores de gabardina clara, gravata de lacinho e chapéu sem plumas, não disse que o super-Camões era ele próprio. Afinal, um super-Camões não vai além de ser um camões maior, e ele estava de reserva para ser Fernando Pessoas, fenómeno nunca visto antes em Portugal. Naturalmente, a sua vida era feita de dias, e dos dias sabemos nós que são iguais mas não se repetem, por isso não surpreende que em um desses, ao passar Fernando diante de um espelho, nele tivesse percebido, de relance, outra pessoa. Pensou que havia sido mais uma ilusão de óptica, das que sempre estão a acontecer sem que lhes prestemos atenção, ou que o último copo de aguardente lhe assentara mal no fígado e na cabeça, mas, à cautela, deu um passo atrás para confirmar se, como é voz corrente, os espelhos não se enganam quando mostram. Pelo menos este tinha-se enganado: havia um homem a olhar de dentro do espelho, e esse homem não era Fernando Pessoa. Era até um pouco mais baixo, tinha a cara a puxar para o moreno, toda ela rapada. Com um movimento inconsciente, Fernando levou ao lábio superior, depois respirou fundo com infantil alívio, o bigode estava lá. Muita coisa se pode esperar de figuras que apareçam nos espelhos, menos que falem. E porque estes, Fernando e a imagem que não era a sua, não iriam ficar ali eternamente a olhar-se, Fernando Pessoa disse: “Chamo-me Ricardo Reis”. O outro sorriu, assentiu com a cabeça e desapareceu. Durante um momento, o espelho ficou vazio, nu, mas logo a seguir outra imagem surgiu, a de um homem magro, pálido, com aspecto de quem não vai ter muita vida para viver. A Fernando pareceu-lhe que este deveria ter sido o primeiro, porém não fez qualquer comentário, só disse: “Chamo-me Alberto Caeiro”. O outro não sorriu, acenou apenas, frouxamente, concordando, e foi-se embora. Fernando Pessoa deixou-se ficar à espera, sempre tinha ouvido dizer que não há duas sem três. A terceira figura tardou uns segundos, era um homem daqueles que exibem saúde para dar e vender, com o ar inconfundível de engenheiro diplomado em Inglaterra. Fernando disse: “Chamo-me Álvaro de Campos”, mas desta vez não esperou que a imagem desaparecesse do espelho, afastou-se ele, provavelmente tinha-se cansado de ter sido tantos em tão pouco tempo. Nessa noite, madrugada alta, Fernando Pessoa acordou a pensar se o tal Álvaro de Campos teria ficado no espelho. Levantou-se, e o que estava lá era a sua própria cara. Disse então: “Chamo-me Bernardo Soares”, e voltou para a cama. Foi depois destes nomes e alguns mais que Fernando achou que era hora de ser também ele ridículo e escreveu as cartas de amor mais ridículas do mundo. Quando já ia muito adiantado nos trabalhos de tradução e poesia, morreu. Os amigos diziam-lhe que tinha um grande futuro na sua frente, mas ele não deve ter acreditado, tanto assim que decidiu morrer injustamente na flor da idade, aos 47 anos, imagine-se. Um momento antes de acabar pediu que lhe dessem os óculos: “Dá-me os óculos” foram as suas últimas e formais palavras. Até hoje nunca ninguém se interessou saber para que os queria ele, assim se vêm ignorando ou desprezando as últimas vontades dos moribundos, mas parece bastante plausível que a sua intenção fosse olhar-se num espelho para saber quem finalmente lá estava. Não lhe deu tempo a parca. Aliás, nem espelho havia no quarto. Este Fernando Pessoa nunca chegou a ter verdadeiramente a certeza de quem era, mas por causa dessa dúvida é que nós vamos conseguindo saber um pouco mais quem somos.

03
set
08

inconsciência

” a decadência é a perda toda da inconsciência,
porque a inconsciência é o fundamento da vida.
o coração,
se pudesse pensar,
pararia. “

fernando pessoa

28
ago
08

regar


” segue o teu destino, rega as tuas plantas,
ama as tuas rosas,
o resto
é a sombra de árvores alheias. “

fernando pessoa

.

28
ago
08

espectativas

” é preciso que todos, que lidam comigo,
se convençam de que sou assim,
e que exigir-me os sentimentos,
aliás muito dignos,
de um homem vulgar e banal,
é como exigir-me que tenha olhos azuis
e cabelos loiros. “

fernando pessoa

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28
ago
08

querer

” queriam me casado, fútil, quotidiano e tributável?
vão para o diabo sem mim,
ou deixem-me ir sozinho para o diabo.
para que havemos de ir juntos? “

fernando pessoa

28
ago
08

metafísica

“… e a consciência de que a metafísica
é uma consequência de se estar mal disposto…”

fernando pessoa

28
ago
08

certezas


” Em todos os manicômios
há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho certeza,
sou mais certo ou menos certo? “

fernando pessoa

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25
mar
08

a pausa, a febre, o dinheiro e meu ego


a relação das pessoas com a escrita nada tem a ver com a relação das pessoas com a leitura. acredito que são coisas totalmente diferentes.

estou lendo pausadamente um dos livros mais metalinguisticos que já pude por as mãos: o “livro do desassossego” de Fernando Pessoa. o livro é um blog.

nele o autor, através de mais um de seus heteronimos, descreve seu desassossego e sua relação com a escrita. “escrevo o que sinto para curar a febre do sentir.” todo o texto é a descrição confessa e dessecada do desassossego que leva um artista a produzir sua obra.

quase sempre a escrita tem para mim também esta função terapêutica. escrevo quase diariamente para curar minha febre do sentir. escrevo, mas não publico. divido as palavras com a pasta de drafts do meu blog e com as poucas pessoas com quem troco mensagens eletrônicas como theo e vincent trocavam cartas.

eu acho o máximo quando lembro de joão ubaldo ribeiro dizendo o que o leva a escrever: “como muitos escritores eu escrevo por dinheiro. eu sempre admirei quem vive do prazer de escrever, mas o fato de escrever por dinheiro não quer dizer que eu não tenho talento ou que a obra seja ruim.” muita gente escreve por dinheiro, mas poucos ganham bem para fazer literatura.

durante os últimos meses alimentei a expectativa de me tornar escritor. de viver da escrita.

alimentar este objetivo nobre não é o problema- acho inclusive que meu fim será esse – mas estou cada vez mais convicto de que, a não ser que o sujeito seja comunista ou que o desassossego não tenha lhe dado outra alternativa, é impossível ser escritor e viver bem ou mal da literatura aos 27 anos. portanto, nada de pressa.

quando não escrevo pela paz de espírito, escrevo para entreter. nessa modalidade o único que se beneficia com isso, além dos leitores, é ele – o meu ego. que agradece bastante. o que nao é nada mais justo visto que nesses casos ele também é o autor, como um heterônimo de fernando pessoa, e os textos não são nada além de conficções – gritos e sussurros de alguém que não eu.

neste blog tudo que vocês conseguiram ler e entender foi feito para entreter, e é de autoria dele. dos poucos textos realmente meus que publiquei 80% dos leitores disse não ter entendido e 20% acha que entendeu. (este por exemplo, foi escrito por nosso amigo.)

escrevemos tudo isto para dizer que, como a maioria de vocês já deve ter percebido, nós fomos obrigados a dar uma pausa no blog para curar a febre do sentir e poder voltar a entreter, escrever coisas legais – e quem sabe um dia, tirar algum dinheiro disso.

voltaremos em breve

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28
out
07

Sampa Revisited


“Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui…

Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, que aqui voltei,

E aqui tornei a voltar, e a voltar.

E aqui de novo tornei a voltar?

Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,

Uma série de contas-entes ligados por um fio memória,

Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo,

Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.”

Alvaro de Campos.

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