
Logo que sai de São Paulo na primeira tentativa na cidade, costumava repetir: – “essa história de ‘morar’ é coisa do século passado. O negócio agora é circular”. E completava: “em tempos de home office, para quê fixar residência se posso passar uns dias em São Paulo na casa de meu irmão, outros em Recife com meus pais, outros no Rio com meu irmão carioca, outros em Salvador na casa original e ainda em Lisboa, na casa do irmão mais novo?” E assim justifiquei minha saída de sampa, o retorno a Salvador e os finais de semana no Rio.
“Cuidado com o que desejas, pois poderás ser atendido” diz o proverbio judaico.
Acabo do voltar para casa, depois de um período meio insólito, quando estive em 3 outros lares que considero meus também. Em 3 cidades diferentes. E minha vida tem sido assim desde que voltei a morar mais tempo em São Paulo. Estou aqui, mas ao mesmo tempo não estou.
Acho que não moro em São Paulo.
Morar é diferente de estar. Morar pressupõe hábito, rotina, conforto, tranqüilidade… por outra, morar significa ter referências. Não referências quaisquer, mas referências seguras. O mercado da esquina, a locadora de filmes, o zelador, a academia, o grupo de amigos, a boêmia e a não boêmia. Enfim, a vida além do trabalho.
Morar também é ser a referência. Entrar num restaurante e conhecer garçons e clientes, estacionar o carro e confiar no flanelinha, receber ligações, convites, estar presente nos aniversários e datas importantes de amigos e familiares. Enfim, morar é estar sempre ali. E uma coisa que não acontece comigo é estar no mesmo lugar sempre.
Voltando a fatídica sabedoria judia, meu desejo tornou-se realidade, e hoje não moro em lugar nenhum.
Não sei onde vou nem onde quero morar, sei somente que sinto falta do morar.
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