somos vítimas de estereótipos culturais históricos. somos vítimas de um preconceito inconsciente colocado e reforçado diariamente em nossas mentes. como o doente que não mais sente a própria perna, nós continuamos a nos ferir, exatamente por não sentir a dor.
disfarçado de boas intenções, camuflado em sorrisos amarelos, transformado e renomeado ‘preconceito social’. vitimas de um perigoso e injusto silogismo. brancos, amarelos, pardos ou negros temos a ilusão de um controle que não temos.
esta consciência, que por um lado parece nos redimir, na realidade aumenta ainda mais nossa responsabilidade em relação ao futuro. se “liberdade é conhecer os condões que nos manipulam”(spinoza), redenção é de alguma formalutar contra eles.
“emancipate yourselves from mental slavery, none but ourselves can free our minds.”(marley)
a consciência do problema já está ai. a questão agora é: – o que vamos fazer com ela?
a internet não cansa de me surpreender, e navegando encontrei este vídeo de um programa de televisão patrocinado pela Bell Telephone de 1958, que já explicava em detalhes as causas e efeitos do aquecimento global. Isto há 50 anos.
e durante 50 anos, o homem, mesmo já consciente das possibilidades devastadoras do aumento de 1 ou 2 graus na temperatura média do planeta, continuou produzindo e poluindo como uma máquina, continuou brigando com a natureza.
minto. não podemos dizer que o homem vai contra a natureza. muito pelo contrário, ele segue suas orientações cegamente. alterar o meio ambiente – em niveis maiores ou menores – é parte fundamental da natureza do homem.
queimar, plantar, construir, desmatar, caçar, domesticar, produzir, vender, comprar, ganhar e perder são verbos que foram criados logo após o falar e ouvir. o pensar, de uma forma ou de outra sempre esteve ali, para o bem ou para o mal.
se chegamos ao ponto em que chegamos, é porque a natureza permitiu. principalmente porque está também em nossa natureza o elemento que sempre acaba por direcionar nosso pensamento e nossas ações: o instinto.
de uma forma ou de outra é a competitividade, a busca guiada pelo tesão, a caça orientada pelo dinheiro que move a humanidade no sentido que estamos indo hoje. e não há nada mais natural e incontrolavel do que o instinto. como os tsunamis, as secas, os tornados e as correntes marítimas, o instinto é também uma força da natureza.
é uma força individual, não coletiva. quero o máximo de dinheiro e sexo para mim, somente para mim, no menor tempo, com o menor esforço.
e não se luta contra forças da natureza.
vejamos a atual crise economica. todos, sem excessão, sabiam que estavamos vivendo numa bolha lisergica de lucros. qualquer dono de negócio de esquina no brasil fazia um IPO e colocava milhões no bolso sem qualquer mérito prático a não ser um bom relatório de projeções e resultados. a loucura era tanta que bancos americanos começaram a se endividar para poder comprar dívidas dos outros.
uma hora a festa iria acabar, todos sabiam disso, mas todos, individualmente e sem excessão, queriam aproveitar a festa até o ultimo segundo, e esqueceram que normalmente os blackouts chegam sem avisar. e wall street ficou no escuro.
agora só nos rest aguardar cenas dos próximos capitulos.
sorte que Deus é brasileiro também para assuntos economicos. e o melhor lugar para se esconder em tempos de crises, sejam elas climátias ou financeiras, é aqui. e eu, como todo ser humano, vou curtir mais um verão na base do cartão de crédito, com ar condicionado ligado ao máximo.
o aquecimento global não me assusta, a natureza humana sim.
é impossível alcançar a perfeição da obra escrita. um filme nunca será igual a imaginação do leitor.
disto todos nós sabíamos. principalmente ele.
mas cá estamos. meses depois.
centenas de pessoas mobilizadas, talvez milhares.
o melhor elenco possível. as melhores locações possíveis. o melhor corte possível.
(mesmo o melhor possível não pode alcançar a imaginação.)
sabia que jamais seria recebido como um filme qualquer. muito mais por ele do que por mim.
a primeira exibição foi uma surpresa. 5 min de aplausos. de pé.
mas neste momento, não me importa a opinião de mais ninguém.
não me importa o que diz a imprensa.
não me importa o que diz minha convicção.
somente ele.
meu deus
o que será que ele vai dizer?
aguardo com ansiedade a estréia de “blindness”, de meirelles e saramago.
em sua obra, saramago manobra elementos e idéias essenciais da nossa plataforma do real e cria uma realidade paralela muito próxima do nosso dia-a-dia.
no meio da rotina, nos tira da zona de conforto e nos tranforma. arte.
foi assim em “ensaio sobre a cegueira”, em “ensaio sobre a lucidez” quando numa eleição os votos nulos são maioria e a democracia é questionada as avessas, em “intermitências da morte” quando num determinado dia as pessoas de um país simplesmente param de morrer ou no “evangelho segundo jesus cristo”, quando coloca o filho de deus e o diabo num mesmo barco num dos diálogos mais insólitos que já tive o prazer de ler.
irônico que sua primeira obra a transformar-se em audio-visual seja exatamente o livro que nos mostra o não-ver. quando não se enxerga, como sabemos o que é real e o que é imaginação? a realidade é tão cruel quanto nossa visão sobre ela? ou é pior?
acompanhei a produção do filme no blog de fernando meirelles. os primeiros passos, as incertezas, os sucessos e as reflexões que ele passou por todo esse processo. ele foi muito generoso em nos deixar entrar em seu set de filmagens.
e talvez por isso, por saramago e por meirelles, não pude deixar de registrar aqui o momento em que os dois assistem ao filme pela primeira vez juntos. é o encontro do trabalho com a inspiração, do tensão de fernando com a emoção de josé.