17
jun
07

Zuleido, Eva e o Paraíso


Durante toda a minha vida convivi com corruptos de todos os quilates. Desde o produtor de eventos que coloca seus próprios ingressos nas mãos dos cambistas até donos das maiores empreiteiras do país. Sempre busquei entender o individuo por trás da ilegalidade e cheguei a conclusão de que não há nada mais humano do que o corrupto.

O corrupto é o homem em estado mais puro, primitivo. É o adão que não resistiu a maçã e que eventualmente foi expulso do paraíso. Foi expulso, mas levou consigo Eva, a única mulher do pedaço, e um latifúndio do tamanho do planeta para criar sua prole. No Brasil, quando o impossível acontece e os adãos são expulsos de brasília, o latifúndio já está garantido no Pará em nome de alguma patrimonial e os recursos estão assegurados no exterior. E Eva? Eva se não for cúmplice, ficará em casa torrando sua humilhação no cartão de crédito. E os filhos? Os filhos se também não forem cúmplices, vão morar e estagiar em revistas de moda no exterior.

Falando em filhos, esse é para mim a excessão que confirma a regra da humano-corrupção.

Mais do que corruptos, conheço filhos de corruptos. Todos me transmitem a sensação de que entraram num jogo sem saber direito as regras, sem conhecer direito os jogadores e sem saber direito se querem continuar no jogo ou não. Como estão ganhando a opção sempre acaba sendo a mais cômoda e menos direita. Na dividida ficam com a pílula azul.

Conheci uma filha de um figurão que recentemente dominou as páginas dos jornais. Transformada em barbie fatal através de plásticas, apliques e maquilagem, ela dirigia seu conversível importado com um olhar anestesiado, meio maníaco, meio suicida. Hoje deve estar a pé, e não quero nem imaginar o olhar que carrega no rosto.

O momento chave para o filho do corrupto é a epifania da descoberta. É ali que ele se define, como quem escolhe uma profissão. Algo começa a cheirar mal… a soar errado… Os números simplesmente não batem. “Será que meu pai é ladrão?”.

Uns mudam-se para o exterior. Miami, big apple, londres… Outros isolam-se em vocações profissionais ou artisticas diversas e inimputáveis. A grande maioria deita e goza na lama. Apesar de tudo estar claro, todos de uma forma ou de outra preferem esperar que a notícia apareça no Jornal Nacional para tornar-se verdade.

Não sou pai, e acho que não preciso ser, para ser capaz de calcular o efeito moral da imagem do grande herói algemado, preso num camburão, transmitida em horário nobre. (Reparem o caso da operação navalha: o único acusado que nas gravações mostrou preocupação com o grampo foi o filho.) É claro que sabemos também que em poucos dias aquele criminoso estará solto, os bens liberados, que a maior parte da fortuna estará provavelmente bem segura no exterior e que em algumas semanas será esquecido pelos jornais e engolido por um novo escândalo.

Mas a imagem continua ali… registrada, nos arquivos, nas rodas sociais, na memória. De que vale a quadra de tênis azul royal, os carros importados e as milionárias pescarias diante desta imagem cabal, definitiva?

Muito se fala dos abusos midiáticos da polícia federal. Desde os nomes das operações até o vazamento dos grampos telefônicos. Sem falar nas imagens. Quantas palavras seriam necessárias para descrever a cena da prisão da Maluf? Hoje ele continua rico e ainda conseguiu ser eleito deputado. Mas quero crer que aquela imagem vai persegui-lo sempre como um fantasma, um karma encravado na consciência. Na história do Brasil o nome Maluf sempre será sinônimo de Ladrão.

E é nisso que quero crer. No poder “educativo” da mídia e do tempo. Nunca serão condenados nas urnas, mas serão pela história. Continuarão ricos, porém marcados pelos comentários nas rodas mais e menos dignas da sociedade. Terão sempre de enfrentar os olhares de censura de anônimos e dos próprios filhos. Do alto dos milhões roubados sempre terão em mente a implacável questão: valeu a pena?

A humanidade do corrupto está exatamente na busca a qualquer preço pelo prazer e pelo sentimento de “estar se dando bem”. Embevecidos com o torpor do dinheiro, são solitários – pois todos seus relacionamentos foram construídos sobre valores escusos. São epicuristas de quinta, porque no que eles fazem não há filosofia – somente impulso. São tristes porque perderam a única coisa que o dinheiro não compra: a dignidade.

Anúncios

0 Responses to “Zuleido, Eva e o Paraíso”



  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


pedro:

  • Vou-me embora para Bahia, terra onde o mercúrio retrógrado não faz a menor diferença. 9 hours ago

colunas

www.pedrotourinho.me

Arquivos


%d blogueiros gostam disto: