03
jul
07

Clube da Luta

“O desastre faz parte da minha evolução natural rumo à tragédia e à dissolução. Estou rompendo meus vínculos com a força física e os bens materiais, porque só destruindo a mim mesmo vou descobrir a força superior do meu espírito.”

Tyler Durden – FightClub

Passei esse ultimo final de semana na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Sempre que vou para o Rio de Janeiro fico na Barra. Tenho um amigo carioca-baiano que diz que Barra não é Rio. Respeito. De fato o bairro está mais para Miami Beach. Adoro a zona sul, porém para mim hoje o Rio de Janeiro é mais a Barra da Tijuca do que qualquer outra coisa.

Voltando ao começo, passei o final de semana no Rio de Janeiro e tive a oportunidade de ver um amigo participando de uma competição “amistosa” com atletas ainda amadores de luta livre. Ou melhor, de MMA (Mixed Martial Arts), que aprendi ser o termo correto. O MMA é uma esporte de combate que na prática é uma luta onde, sem trocadilhos, vale tudo. Reza a lenda que foi criado na grécia antiga por Hercules e Teseu, quando era chamado de pankratos (pan siginifica “todos” e kratos – “poder”), e foi introduzida nos jogos olimpicos já em 648 A.C. Ficou mais popular a partir de 1993, com o Ultimate Fighting Championship, cuja proposta era confrontar diferentes estilos de artes marciais num ambiente com regras mínimas e comprovar qual a modalidade mais eficiente numa situação de luta livre.

Esperava um ambiente totalmente hostil, e a primeira vista era isso mesmo que parecia. No subsolo de uma academia, numa área batizada de “Black House”, um ringue, uma área para aquecimento, uma gaiola tipo aquela em que Wolverine lutava no primeiro X-Men e mais ou menos 30 lutadores. Todos de alguma forma anabolizados, com orelhas carcomidas pelo chão dos tatames e em geral tatuados. Havia a excessão de um gabiru, seco, com cara de goblin, que corria feito um alucinado para perder ainda mais peso e adequar-se a uma determinada categoria antes da luta.

Apesar de tudo, era realmente só a primeira impressão e talvez ainda algum preconceito. Não havia ali nenhuma hostilidade, tendo inclusive crianças – filhos dos lutadores – interagindo e brincando com os lutadores mais velhos. O clima era de confraternização, como em qualquer outra modalidade esportiva. Dentro do ringue, claro, era outra história. Havia técnica sim, mas em essência era violência. Eles subiam no ringue para agredir e serem agredidos. O olhar de fúria, os golpes rápidos, a respiração ofegante e o sangue. Em tudo lembrava na melhor das hipóteses o coliseu, e na pior uma briga de galo.

O que leva uma pessoa a dedicar a vida a isto?

Impossível não fazer uma associação direta a Clube da Luta, sucesso de bilheteria de David Fincher de 1999. “O quanto você sabe de si mesmo se nunca esteve numa luta?” provoca Tyler Durden, a emblemática personagem que transforma a vida do protagonista representado pelo ator Edward Norton. O filme explora a idéia da descoberta do sentido da vida por meio da proximidade da sua destruição.

Nesta linha, a busca pelo sentido da vida adquire vários formatos. No filme ela vai da compra compulsiva de móveis e objetos de decoração, passa pela proximidade com vitimas de câncer de testículo, chega na criação do clube da luta onde homens se massacram até o limite e termina finalmente em atos de vandalismo que desaguam no mais puro terrorismo. É um clássico.

A vida real não é tão diferente. E não precisamos nem sair da Barra.

Vamos ao exemplo mais recente de acontecimentos que estão se tornando rotina na sociedade brasileira: o caso Sirlei. O que aqueles jovens fizeram é auto-destruição pura. O objetivo logicamente não era agredir a doméstica… Isso além de fácil não teria um propósito. O prazer sádico explica, mas há outras formas mais “seguras”e mais intensas de se ter esse tipo de sensação, como as drogas. O fato de estarem dopados facilita mais igualmente não justifica – se cada usuário de droga deste país tivesse reações desse tipo não seria possível andar nas ruas.

Seguindo a filosofia de Durden, o vandalismo, as drogas, a agressão gratuita e o desrespeito não são o fim, mas sim o meio para estar próximo da auto-destruição e da possibilidade de um (macabro) sentido para a vida. “Somente após um desastre a ressurreição é possível.” De uma forma ou de outra, esses jovens terão muito tempo para pensar no sentido de suas vidas enquanto estiverem na cadeia ou marginalizados pela sociedade civilizada.

E dai volto aos ringues e fico perplexo e feliz ao me dar conta de que todos aqueles lutadores, que acima de tudo são atletas, encontraram talvez sentido para suas vidas também através da agressividade, mas de uma agressividade técnica, de uma luta que é livre, mas ao mesmo tempo controlada. O adversário ali tem o mesmo tamanho, a mesma forma física e está ali ciente e consciente.

E o mundo de hoje está tão louco que fico surpreso ao concluir que prefiro que meus filhos comecem desde cedo a lutar jiu-jitsu e até mesmo que se tornem lutadores de MMA, do que correr o risco, o qual todos os pais estão sujeitos, de vê-los envolvidos em situações tão surreais como a daqueles e de tantos outros jovens perdidos em busca da destruição.

Tudo isso num só final de semana na Barra da Tijuca.

Anúncios

1 Response to “Clube da Luta”


  1. 1 guga ex-karambola
    julho 5, 2007 às 7:13 pm

    Boa Tourera. Vira e mexe passo aqui p ler seu blog.
    Abs
    Guga


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




pedro:

Erro: o Twitter não respondeu. Por favor, aguarde alguns minutos e atualize esta página.

colunas

www.pedrotourinho.me

Arquivos


%d blogueiros gostam disto: