17
jul
07

Sua Majestade a Vaia

Odeio esportes e acho chatíssimo assistir aos jogos pan-americanos pela televisão.Um tédio. O pior são as modalidades mais “olímpicas”, que de pan-americanas não têm absolutamente nada. Sou contra esse reducionismo, até porque se fôssemos buscar as atividades nativamente americanas estaríamos disputando quem sobe mais rápido o pau-de-sebo, salto em cachoeiras ou caça aos preás. Mas não deixa de ser ridículo ver uma luta greco-romana entre um canadense e um venezuelano.

Como a curiosidade é sempre mais forte, acabei perdendo um pouco do meu tempo para ver a abertura dos jogos panamericanos do rio de janeiro. Estava acima de qualquer coisa curioso para conferir a papagaiada que os carnavalescos prepararam para o grande dia. Confesso que acabei por me surpreender positivamente. Tudo muito bem amarrado: o tema, a cenografia, as fantasias, as musicas e os fogos. Faltou, é verdade, número de figurantes. Achei tudo meio vazio apesar de coerente. É a sindrome de pobre do brasileiro… com certeza foi culpa do orçamento. Como se 100 dançarinos a mais ou menos fizesse alguma diferença no rombo causado pelo pan.

No final foi o jacaré quem salvou a apresentação.


Contudo, a grande estrela da abertura não foi a delegação brasileira, a tocha, o jacaré, cesar maia, o presidente lula ou mesmo daniela mercury – embora ela até estivesse se achando. A grande estrela da abertura do pan foi sua majestade a vaia. Curta, porém estrondosa, apareceu em homenagem ao popularmente imbativel presidente lula, no momento em que seu nome foi citado por um envergonhado sancho pança. A pedido de algum assessor do planalto, como sempre posando de D. Quixote, Arthur Nuzman tentou e conseguiu impedir o bis ao fazer as vezes de presidente e declarar aberto os jogos olímpicos. FHC, que não perde uma, logo declarou que se fosse ele teria enfrentado as vaias e cumprido o papel de estadista. Coisas de Kubanacan.

A tropa de choque tratou de jogar panos quentes. “Ação coordenada de oposicionistas!” diziam uns. “Vaias da elite” diziam outros. “Vaias para o atraso”, diziam os mais modestos. Meu nobre governador saiu-se, como sempre, com a solução mais criativa, e foi buscar num reacionário a frase definitiva para isentar o torneiro mecânico de qualquer culpa: Prefiro ficar com Nelson Rodrigues, disse Jacques Wagner, que escreveu, “No Maracanã vaia-se até minuto de silêncio e, como disse o outro, vaia-se até mulher nua.”

Boa saída, não há como negar. Nelson Rodrigues sempre nos oferece boas saídas.

Vale lembrar ao nobre governador que também foi dele a frase: “O óbvio sempre é ululante.” E naquele momento o óbvio surgiu mais ululante do que nunca, e dissipou a cortina de fumaça das pesquisas de popularidade de Lula. Aquela vaia não afeta nem em um milímetro a argamassa eleitoral dos roedores do bolsa-família, é verdade. Mas de uma forma ou de outra machuca. Vai como uma navalha direto no estômago do torneiro mecânico que sonha em ser aceito pela classe consciente, mas que no fundo sabe que isso não vai acontecer nunca. A vaia coloca Lula de volta no pau-de-arara. O que acredito, sinceramente, que esteja lhe fazendo bem nesse momento.

A vaia, como toda manifestação de multidões, aparece para nos mostrar a verdade. Não necessariamente a única, mas sem dúvida uma verdade. Os primeiros registros de vaias surgiram também na grécia-antiga. Durante o festival anual em homenagem a dionísio, dramaturgos competiam e eram avaliados pela platéia. Quando o reformista democrático Kleisthenes assumiu no ano 6 A.C, a participação das platéias passou a ser tida como um ato cívico, e os aplausos tornaram-se símbolos de aprovação, e os gritos e vaias de desagravo.

Interessante como dramaturgia e política acabam se misturando. São essencialmente a mesma coisa: indivíduos exercendo papeis. E como na arte, nem sempre escolhemos os papéis que as vezes passamos a vida inteira a interpretar. Esse não é o caso de Lula.

Volto ao grande dramaturgo, talvez um dos mais vaiados e celebrados dramaturgos, para trazer um ponto também adequado ao vaiado da vez: “A vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre, do que a grande apoteose. Os admiradores corrompem.”. É assim que vejo Lula, um corrompido pela popularidade e pelos comensalistas de Brasilía. Nesse caso, a vaia – se bem aproveitada – por ser para ele um grande presente. A vaia sempre é reveladora.

Quem diria que no meio da monotonia do pan e da cafonice de sua festa de abertura, veríamos d. quixote, sancho pança e um torneiro mecânico, este ultimo recebendo da multidão, classe média ou não, um presente o qual ele não poderia negar. Panamericana ou não, vimos cair as mascaras da secular dramaturgia da política humana que, como a luta greco-romana, vêm de muito antes de Colombo.

Feliz daqueles que ficaram no pau-de-sebo.

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1 Response to “Sua Majestade a Vaia”


  1. 1 Felipe
    julho 17, 2007 às 10:28 pm

    Vaias curtas, merecidas e que ecoaram pelas casas de todos os brasileiros.
    Uma manisfetação pública.
    A VOZ DO POVO É A VOZ DE DEUS !!!

    Abs Dão

    Felipe Solari


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