02
set
07

Colombia e o Realismo Fantástico

Ainda envergonhado por ter passado tanto tempo sem postar nada no blog, volto ao batente para contar um pouco da minha ultima viagem a Colômbia.

Desde que li o meu primeiro romance de Garcia Marquez, Amor nos Tempos de Cólera, sempre tive uma fascinação por aquele universo fantástico. Nos anos seguintes devorei praticamente todos os romances de Gabo. Seja no nobel “Cem Anos de Solidão”, no intrigante “Do Amor e Outros Demônios” ou no assustadoramente jornalístico “Diário de Naufrago”, a Colômbia está alí. É praticamente um personagem. Impossível não fazer um paralelo a obra do seu contemporâneo Jorge Amado, onde se transpira Bahia.

Fui para a Colombia sem muitas expectativas. Devo confessar que no fundo esperava encontrar Macondo.

Não sei se encontrei Macondo, e certamente não cheguei nem perto de Aracataca, mas sem duvida pude entender melhor seus personagens.

São muitos os críticos do realismo fantástico que dizem que esse estilo literário surgiu para tornar a pobreza, se não bela, pelo menos mágica. Uma forma de fuga, um escapismo da dura realidade do povo. Talvez por isso o realismo fantástico seja uma manifestação eminentemente latino americana. A realidade feia, dura e cruel, com um pouco de imaginação torna-se fantástica, e portanto, toleravel.

Cada vez tenho mais convicção de que nós, latino-americanos, ainda utilizamos desses mesmos artifícios de Garcia Marquez, Isabel Allende, Vargas Losa e Dias Gomes para sobreviver. Enxergamos a realidade através de outra lente. Criamos desculpas, justificativas e deslocamos nosso ponto de vista para um lugar mais agradável, mais cômodo. E assim seguimos sobrevivendo a Fidel Castro e Hugo Chaves, a FARC e ao MST, a pobreza transformada em atração turística, a seca transformada em corrupção.

Contudo, senti algo diferente no colombiano. No Brasil ainda temos algo do homem gentil, do silvícola preguiçoso e domesticado, do negro cativo, do emigrante esperançoso, do português exilado em busca da segunda chance. Na Colombia é possível ver nos olhos do seu povo uma outra atitude. Gana de viver, agressividade contida porém aparente, uma sensação de que a qualquer momento pode-se virar o jogo. O sonho está sempre ali, assim como a disposição para alcança-lo.

Já fisicamente, a Colômbia me deixou sem ar.

Nunca havia tido uma sensação como aquela. Sempre me julguei superior a qualquer jetleg, mudança climática ou elevação de altitude. Estava errado. Nos primeiros dias tive uma dificuldade imensa em respirar, apavorado como uma criança que leva o primeiro caldo. A vida nos trópicos e no nível do mar nos deixa mal acostumados. Não precisamos fazer o menor esforço para viver.

Lá em cima o ar é pouco. Não que seja pouco, isso é ignorância. Mas ele entra no pulmão mais devagar, com menos pressão. Por descuido alguem pode acabar por sufocar-se sem perceber. Estranho como uma mudança no ambiente afeta o organismo. E como os organismos reagem de forma diferente de pessoa para pessoa.

Talvez a intensidade dos colombianos também tenha sua origem na falta de ar… Imperceptível para eles, mas ainda assim real.

Essa semana Garcia Marques voltou a Aracataca depois de 20 anos. São 80 anos de Gabo, 40 do lançamento de “Cem Anos de Solidão” e 25 desde o Nobel. A cidade estava em festa. O livro definiu a vida daquela cidade, e aquela cidade definiu a vida do autor. Somente a lembrança dos primeiros 8 anos de vida passados na vila foram responsáveis pela criação de todo um universo. Nas palavras do próprio Gabo, quando retornou a cidade ainda jovem ao lado da mãe para se desfazer de alguns bens: “Não havia uma porta, uma fenda de um muro, um rastro humano que não despertasse em mim uma ressonância sobrenatural”.

Não vi Macondo nem conheci Gabo, mas pude experimentar um pouco dessa ressonância sobrenatural que de fato existe naquele país. Só me resta concluir que depois de tantos conflitos, tanta luta e tanta pobreza, se a realidade não pode ser melhor, que seja ao menos mágica.

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2 Responses to “Colombia e o Realismo Fantástico”


  1. 1 Tuca
    setembro 3, 2007 às 5:09 pm

    Um comentário… esse seu NICK hein!? PT! hummmmm

    Anyways bom post… que bom que vc está de volta!

  2. 2 ricardo
    setembro 6, 2007 às 2:00 am

    Grandesssssssssssss palavrasssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss Dãoooooooooooooo!


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pedro:

  • Vou-me embora para Bahia, terra onde o mercúrio retrógrado não faz a menor diferença. 1 hour ago

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