29
mar
08

40 | 60


não consigo me imaginar aos 60.

durante toda a minha vida achei que por um ou outro motivo não chegaria aos 40. sempre que falava isso minha mãe tinha calafrios e meus irmãos sorriam. eu achava bonito ter essa certeza “profética”, e no fundo achava comodo não durar tanto tempo.

se eu não chegasse aos 40, não teria de me preocupar com aposentadoria. o que significa torrar ainda jovem tudo que se ganha. significa não ter de parar aos poucos, significa frear de uma vez só, a qualquer momento. dizia (e as vezes ainda digo) com o peito cheio: – quem garante que estarei vivo amanhã?

talvez por trás disso tudo, mais do que o medo de morrer, havia o medo de viver.

Estou falando de mim e a intenção era falar dos stones.

terça-feira fui assistir a pré-estréia do filme ” shine a light”, de martin scorcese sobre os rolling stones. fui com solari, uma das pessoas mais legais que conheci recentemente. cheguei com todas as expectativas e ao mesmo tempo com nenhuma. tinha visto um trailler que era mais engraçado do que esclarecedor. por outro lado um filme de martin scorcese por pior que seja não deve ser de se jogar fora.

por uma ou por outra, sai do cinema fascinado. o filme é a gravação de um show intimista dos stones – sem grandes palcos ou grandes públicos – filmado por 16 cameras manejadas por 16 técnicos ganhadores do oscar, e editado e dirigido por martin scorcese. estrelas de um lado e estrelas do outro.

nos primeiros minutos o grande mistério era procurar entender qual o corte que scorcese queria dar aquele espetáculo. qual a sua intenção. por qual ótica ele queria nos mostrar os rolling stones. o mistério não durou muito.

scorcese nos coloca no palco e na platéia ao mesmo tempo. podíamos ver todas aos rugas de mick jagger enquanto tentávamos nos desviar da pessoa da frente. ficávamos cegos com a luz ao mesmo tempo que podíamos ver a cumplicidade no palco. não sabia se as palmas eram da plateia do cinema ou da engenharia de som do filme (produzido para cinemas IMAX). destaca a dimensão humana dos gênios e por isso mesmo os faz ainda mais geniais.

eu pessoalmente, um ocioso convicto, me impressionei mesmo com o folego. mais do que com a energia, tesão, vocação, carisma, etc… o que tirou meu sono foi o folego.

os sujeitos passam a vida entregues a drogas, orgias, bebidas e tudo o mais que a criatividade humana pode oferecer… tudo que me repetiram o tempo inteiro para não fazer, eles provavelmente já fizeram em excesso. e cá estou eu, pensando em não chegar aos 40, e eles lá, ricos, trabalhando e vivos aos 60.

o segredo? um amigo logo disse: – ” dinheiro!” outro palpitou: – ” fazer o que gosta!” . eu acho que é um pouco dos dois.

na mesma semana, outro exemplo: maria bethania


bethania aos 60 não é só mais apaixonante como também é mais sensual do que aos 20. na quinta-feira fui ao seu show com omara portuondo, uma cubana também muito sensual aos 70, e fiquei impressionado não com a energia ou o folego, mas com a intensidade. tudo em bethania é intenso. é entrega. é gana. nela ainda vive o carcará.

não foi o melhor show de bethania que já vi. talvez tenha sido o pior. mesmo assim foi lindo. e foi intenso. a riqueza do show de maria bethania está nos detalhes, na luz, no cenário – que docemente cafona como a américa latina, para mim foi o grande destaque.

o sucesso e a longevidade de personalidades aparentemente tão diferentes nos mostra que o mais importante não é necessariamente como se leva a vida – seja ela com fé ou com drogas – mas sim o que se realiza.

scorcese é de 46, bethania de 43 e mick jagger de 42. omara nasceu em 1930. no palco, bethania já não era aquela menina de santo amaro. assim como mick jagger também não era mais aquele. ambos tinham a força, o folego, a energia e a maturidade que só o tempo e o sucesso traz.

e de repente desejei estar ali, me sentir naquela plenitude. e uma semana em são paulo talvez tenha resolvido o que algumas terapeutas tentaram em vão.

ainda não consigo me ver aos 60, mas pelo menos já sei como quero estar.

.

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1 Response to “40 | 60”


  1. 1 Anonymous
    abril 4, 2008 às 6:43 pm

    Muito bom o texto!
    T


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