07
jun
08

sun-maid, acarajé e pimenta


nelson rodrigues dizia que para ele a infância era somente cheiro. não tato, imagens, sons ou gostos: – cheiro. pra mim a infância é “gosto”, por outra, a infância para mim é a simples, irrefutável e pecaminosa gula.

não lembro de lugares, nomes, rostos ou situações, mas sinto – vejam bem: sinto – o sabor dos quitutes e das comidas da minha história.

a casa de meus avós paternos por exemplo, tem gosto de passas Sun Maid. minha avó culpa minha mãe, que assume em parte, mas que culpa minha avó. o fato inapelável é que fui sistemáticamente obrigado a comer passas Sun Maid, e pior: fui obrigado a gostar. desconfio que como uma vítima da sindrome de estocolmo, passei a gostar do meu algoz, que naquele momento estava personificado em uvas passas. a memória gustativa puxa a auditiva e lembro: “- é ferro meu filho!”. pela quantidade de passas que coloquei para dentro, ironia do destino seria morrer de anemia.

a casa de meu avós por parte de mãe tem gosto de bife com batatas fritas. a fazenda tem gosto de ovo frito e daqueles pães bem simples. o veraneio tinha gosto de carangueijo e o primeiro apartamento em que moramos tem gosto de biscoito de maizena com catchup…

este mesmo apartamento também nos revela um trauma. desta vez não por um gosto, mas sim pela ausência dele: na minha infância não havia presunto cozido sadia. pior. antes simplesmente não tivesse existido – a criança não sente falta do que não conhece – porém existia – e faltava. esse era o problema: a falta do sabor. meus pais negam e defendem-se, dizendo que isso é imaginação, uma memória inventada. talvez seja. mas o fato é que hoje sou um glutão devorador de frios de todos os tipos. ah, a fome na infância….

vilas do atlantico tem gosto de acarajé, e lá, também em vilas do atlantico, uma experiencia gastronomica marcou para sempre minha relação com a pimenta e com o mar. eu devia ser um criança nos seus 5 anos de idade. talvez um pouco mais. estavamos na praia. naquele tempo não havia as barracas nababescas que hoje dominam qualquer orla de quinta. naquele tempo havia tabuleiros e isopores de bebida. só.

pois bem, comi um acarajé batizado. um pedaço de acarajé com pimenta. lembro como se fosse hoje o desespero. o ardor. que gosto é esse? o que é isso? quem colocou pimenta no meu acarajé? (ainda hoje tenho um medo cabal de dividir um prato de acarajé com adeptos de pimenta) havia somente o desespero e eu estava só. não lembro da solidariedade de ninguém. nenhum tio, pai, amigo ou primo. eu estava só.

o leitor prático pode perguntar: por que não tomou um refrigerante? uma água? um chicabom?

não havia. ou não me deram. ou não pedi. não sei. o fato é que na luta contra a dor tomei uma decisão: ir ao mar. beber água do mar. e para mim a pimenta e o mar nunca mais foram os mesmos. nunca mais me acostumei nem com um nem com outro.

descobri na memória dos gostos um caminho para lembrar da infância que sabiamente esqueci. fechando como começamos, cito nelson: “o menino está enterrado no adulto como um sapo de macumba”. sigo explorando os sabores e as memórias de minha história para chegar à criança que sou, e para, quem sabe, encarar a vida como quem encara com gosto um acarajé com bastante pimenta.

.

Anúncios

5 Responses to “sun-maid, acarajé e pimenta”


  1. 1 Gus
    junho 7, 2008 às 11:10 pm

    uma vez tuca me disse que depois que se come muita pimenta não se deve beber nada para nao espalhar e sim comer farinha é verdade?

  2. 2 Tuca
    junho 8, 2008 às 12:13 am

    Se eu disse é pq é verdade GUS! hahahahha

    Eu tb tinha que comer as mesmas passas na casa de minha avó. Eu tb nao gosto até hj de passas. Acho que era mania de avó baiana! hahahah

    Eu não sei se as minhas lembranças são de gostos, mas o meu presente com certeza tem muito a ver com isso. hehehehe

    Abs

  3. 3 Gus
    junho 8, 2008 às 12:28 am

    Tuca, esse comentario foi muito Dr. House ou não né? Foi um comentario de Tuca sobre as verdades ditas aos amigos….

    Não sou apegado ao paladar da infancia a não ser quando se fala de frutos do mar e afins, esses desde pequeno meu nariz já nao suportava

    Abs

  4. 4 maria elisa
    junho 8, 2008 às 2:56 pm

    Estou perplexa: Quanta imaginaçao !

    e antes tivesse obrigado eles todos a comerem verduras, sopinhas,figado, miolo,etc.Talvez assim eles tivessem o que lembrar de verdade e não precisar inventar.
    Lisa

  5. 5 Clarissa Magalhães
    junho 13, 2008 às 2:58 pm

    isso que é confort food..
    o resto é bobagem.
    Parabéns, está ótimo!


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


pedro:

colunas

www.pedrotourinho.me

Arquivos


%d blogueiros gostam disto: