15
jun
08

falta do morar


Logo que sai de São Paulo na primeira tentativa na cidade, costumava repetir: – “essa história de ‘morar’ é coisa do século passado. O negócio agora é circular”. E completava: “em tempos de home office, para quê fixar residência se posso passar uns dias em São Paulo na casa de meu irmão, outros em Recife com meus pais, outros no Rio com meu irmão carioca, outros em Salvador na casa original e ainda em Lisboa, na casa do irmão mais novo?” E assim justifiquei minha saída de sampa, o retorno a Salvador e os finais de semana no Rio.

“Cuidado com o que desejas, pois poderás ser atendido” diz o proverbio judaico.

Acabo do voltar para casa, depois de um período meio insólito, quando estive em 3 outros lares que considero meus também. Em 3 cidades diferentes. E minha vida tem sido assim desde que voltei a morar mais tempo em São Paulo. Estou aqui, mas ao mesmo tempo não estou.

Acho que não moro em São Paulo.

Morar é diferente de estar. Morar pressupõe hábito, rotina, conforto, tranqüilidade… por outra, morar significa ter referências. Não referências quaisquer, mas referências seguras. O mercado da esquina, a locadora de filmes, o zelador, a academia, o grupo de amigos, a boêmia e a não boêmia. Enfim, a vida além do trabalho.

Morar também é ser a referência. Entrar num restaurante e conhecer garçons e clientes, estacionar o carro e confiar no flanelinha, receber ligações, convites, estar presente nos aniversários e datas importantes de amigos e familiares. Enfim, morar é estar sempre ali. E uma coisa que não acontece comigo é estar no mesmo lugar sempre.

Voltando a fatídica sabedoria judia, meu desejo tornou-se realidade, e hoje não moro em lugar nenhum.

Não sei onde vou nem onde quero morar, sei somente que sinto falta do morar.

.

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4 Responses to “falta do morar”


  1. 1 Tuca
    junho 18, 2008 às 12:33 pm

    Nossa que triste esse post.

    Vc sabe que eu viajo muito também mas eu faço questão de manter meus vículos… é difícil.

    Boa sorte!

  2. 2 Gus
    junho 19, 2008 às 1:42 am

    Realmente tenho que concordar com o Tuca. Tambem viajo muito mas mantenho o que posso chamar de raizes! Mesmo as vezes com hoteis e hoteis, minha cama, meu isso e meu aquilo sempre estão ali para meu retorno.

    Abs

  3. 3 Pedro T
    junho 19, 2008 às 1:45 am

    nem tudo são flores my friends..

  4. 4 TT
    junho 25, 2008 às 12:47 am

    Posso entender bem o que meu irmão quer dizer. Mas morar para mim é um pouco do seu conceito antigo. Como dizia a banda calcinha preta (se me permitem) “moro onde o sonho mora”. Quando morar é um caminho para se buscar o verdadeiro conforto do coração ou quando morar é um meio para encontrar o verdadeiro lar.
    Estar em casa é falar no telefone com minha mãe e ligar pra um amigo de um bar. Estar em casa é gostar do que se está fazendo e onde se está fazendo. Às vezes podemos morar, receber ligações e convites e conhecer o flanelinham, mas quando o desejo mora longe, nenhum lugar pode ser chamado de lar.


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