18
jul
08

buda||pest – I


gosto de andar sozinho pela noite.

budapeste. diferente do verão, quando a cidade transforma-se numa terma e as noites são mais quentes do que as manhãs, estávamos já no final de outono, e o céu parecia acreditar que já era inverno.

havia passado a primeira metade da noite num pub gerenciado por um hungaro mais irlandes do que os irlandeses. estava com muitos amigos. amigos queridos. uma energia tão pura e intensa como àquelas somente possíveis quando estamos longe de casa. e tudo ia bem.

mas o frio me deixa melancólico, e pior: – me faz fumante. nunca fumei cigarro. enquanto todos os meus amigos aos 15 mamavam nos adocicados gudang garam, eu já havia começado minha inseparavel amizade com johnnie walker, com quem, diga-se de passagem, me relaciono até hoje. nunca vi lógica num fumo que fede mais do que a maconha, que tem mais nicotina do que o cigarro e que não bate onda. no frio não fumo gudang garam, mas trago qualquer outra coisa que aparecer em minha frente.

voltando ao frio, ele me deixa melancólico e fumante. e budapeste é a cidade perfeita para fumantes, melancólicos e suicidas. há uma ponte a cada 100 metros. pontes belíssimas, umas mais antigas, outras mais modernas. não há em budapeste uma ponte igual a outra. elas simplesmente não se repetem. e todas sobre o rio danubio, que não é, nem jamais foi, azul, mas sim de um tom lugubre, magenta, de uma escuridão que nada tem a ver com poluição, mas sim com paz de espírito.

são 9 pontes que ligam buda a peste. buda foi fundada por romanos, em 89 antes de cristo. alguns anos depois, do outro lado do rio, um pequeno povoado crescia rapidamente através do comercio. foi ali, por conta do capitalismo, que nasceu peste. não deixa de ser irônica a semiótica – e o senso de humor – do universo ao criar uma cidade da fusão de buda com a peste.

de volta ao pub, eu já não conseguia mais ficar ali. a alegria, a leveza e a paz daquele momento me levava a outros momentos que não voltariam mais. música, velas, risos e lágrimas. por que gostamos tanto de sofrer? por que nos apaixonamos por pessoas, lugares e momentos mesmo tendo a certeza de que um dia iremos nos separar? por que os momentos passam? alguns momentos tem a força de uma eternidade, mas são apenas alguns momentos, e passam.

a lembrança do que passou, e a esperança e descrença no que estava por vir, me impediam de viver aqueles minutos de eternidade. como um mestre dos magos, desapareci.

foi entre o bem e o mal, melancólico e fumante, sob o danúbio azul, em uma das nove pontes de budapeste que me refugiei. a temperatura devia ser de no máximo 4 graus. uma neblina densa me colocava numa outra dimensão. johnnie, que me acompanhara até aquele momento, já havia me deixado só. eu já vivenciava um daqueles momentos únicos e intensos de lúcidez. in vino veritas.

foi da contemplação que surgiu o silêncio, e ali tive um encontro que mudaria minha vida.

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