23
jul
08

buda||pest – III


coincidências como essas me assustam.

nunca esteve tão claro e tão próximo. não era amor, não era carinho ou caridade. era pura atração. simplesmente atração.

já estávamos a horas na cantina e de repente resolvemos todos sair e andar pela cidade. estranhamente não atravessamos ponte alguma. estávamos felizes em peste. fomos caminhando pela margem do danúbio em direção ao parlamento.

alguém tinha um baseado. minto. todos tinham. fomos fumando tranqüilamente pelas ruas, como se estivéssemos em amsterdam. nada mais ridicularmente natural do que a maconha. não consigo entender a caretice de uma sociedade que se droga diariamente com álcool, política, cigarro e lixo de celebridades. anfetamina, cafeina, sibutramina, cocaína e vitamina. energéticos, diuréticos e pretéritos. loucura maior neste escuro perseguir a maconha. não sou defensor, mal sei fechar, fumo socialmente. mas não sou idiota.

chapados e abraçados, atravessávamos a cidade. não chegamos a ir até o parlamento, resolvemos voltar. queríamos continuar juntos, bebendo e felizes. paramos num pub, numa rua paralela a vaci utca.

não havia nada de especial no pub a não ser o fato dele parecer irlandes e de estar aberto. eram grandes mesas, com sofás e cadeiras. o balcão ornamentado com garrafas de bebidas e máquinas de chopp era igual ao balcão de qualquer outro pub irlandes. atrás dele uma típica húngara. pequena, magra, cabelos pretos ondulados e escorridos. olhos fundos e nariz oblíquo. parecia saída de um campo de concentração. sentamos, e ao meu lado sentou a pequena sereia.

ela olhava para mim como se esperando algo. um sinal, um movimento, uma atitude. já estavamos conversando todos ha horas. tudo estava claro, evidente. tentei direcionar a minha atenção ao centro da mesa como para ganhar tempo. continuei no mesmo ritmo da tarde, contando histórias, bebendo intensamente. a sereia me olhava apaixonada. quanto mais desviava a atenção, mais ela me encarava. sem perceber, eu estava cantando para ela e não o oposto.

qual o problema se, afinal, eu também a desejava? o que me impedia se, afinal, eu a queria e sabia que poderia tê-la quando quisesse?

a história se repete. nesses momentos sinto-me como um paciente em coma, como um interno dopado, que vê a vida passando ao redor mas que não consegue dominar o próprio corpo, orientar os movimentos, espectador da vida a partir de um veículo que não pode ser dirigido. por inabilidade, inexperiência, carma ou o que quer que seja, o fato é que nem minha mente nem minhas emoções dominavam aquele corpo que inesperadamente tornara-se inerte.

se a dor é real, o coração não batia, mas sim me espancava por dentro. uma bomba atômica explodindo dentro de um corpo que simplesmente não responde.

naquela noite, mais uma vez, fugi.

[ … ]
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