24
jul
08

buda||pest – IV


nunca mais a vi.

depois daquela viagem nunca mais a vi. hoje, na mesma cidade de 10 anos atrás, vejo que sempre ficou em minha boca o gosto de ter perdido o destino. sem dúvida eu não dava chances para àquelas que poderiam ser as mulheres de minha vida. mais do que isso. depois daquela viagem ficou claro que eu não dava chance ao amor.

minha vida seguiu em relacionamentos rasos, repetições infames e eventualmente divertidas como a sessão da tarde. qualquer risco de amor e o coração me espancava, me enxotava para a rua, para a noite, para o vazio. um alarme que soava antes que eu me desse conta do “risco” de dar certo.

eu não entendia. procurava entender, mas não entendia. procurava vencer, mas perdia. no final, me entregava, me recolhia. finjo ter paciência. como aquela sereia houve outras. como aquele destino que perdi, também houve outros. e cá estou eu, só. o tempo não para. e sempre foi assim, desde criança.

talvez por isso tenha uma relação estranha com crianças. tenho medo.

todos conhecem a crueldade da infância, mas a impressão que tenho é de que no meu caso houve um exagero. não lembro de amigos. não lembro de inimigos. não lembro de vitórias nem de derrotas. não vivi amores, não vivi intrigas. tenho a nítida impressão de não ter vivido esta etapa de minha vida. e não há nada mais cruel do que a nulidade.

contudo, ironicamente, ainda queima viva em minha carne as memórias inexistentes de minha infância. a criança que pensa que não existiu vive ainda enterrada dentro de mim. e mesmo hoje, quando completo 33 anos, ela continua a me acompanhar. não desiste. é esta criança, e não eu, que tem medo de outras crianças.

a neblina ficava cada vez mais espessa, uma cortina de fumaça. o frio tremia meus músculos, espremia meus ossos, como para me lembrar de que ali ainda havia um corpo. a fumaça do cigarro não se misturava com a névoa, diferente dos meus pensamentos, que estavam em todo lugar, me sufocando. a lua, nossa senhora do silêncio, brilhava. naquele inferno gelado consegui um segundo de paz.

quando surgiu uma criança. devia ter algo em torno de 11 anos. poderia ser de qualquer nacionalidade ou etnia, inclusive húngara. estava só. solidamente só. ameaçadoramente só. como eu, só. embora hoje em dia não se diferencie mais roupas de adultos de roupas de crianças, aquele menino vestia uma roupa adequada a sua aparência de idade. ainda não consigo ver seu olhar, mas ele possui um passo decidido. diferente de mim, não parece apavorado.

quando o avistei, numa das extremidades da ponte, vindo de buda para peste, eu ainda permanecia no centro. no meio do caminho. sem saber ao certo para que lado seguir. não sabia se ia de encontro a criança, seguindo meu caminho original, se voltava para peste e, com passo acelerado, evitava o encontro, ou se permanecia onde estava. permaneci. alguma coisa me fazia ficar.

a criança se aproximou. possuía olhos azuis e não tive medo. por outra, tive paz. me encarou com um olhar rígido que não me pareceu ameaçador. seus olhos diziam tudo. estava em paz, o que não quer dizer que não houvesse tensão. de repente, pôs-se a falar húngaro, um idioma que eu não entendo, mas a única língua que o demônio respeita. e falava diretamente com meus demônios, com cada um deles.

desabei a chorar, como uma catarse. não entendia uma palavra do que estava sendo dito, e, sinceramente, não precisava entender. intuitivamente compreendi que não precisava mais escolher o deserto.

se era deus ou o diabo não sei. vinha de buda, o que é um bom sinal. mas não sei se os demônios respeitam deus tanto quanto a si próprios. daquele dia em diante não tive mais medo do amor. a criança perdeu o medo.

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