Posts Tagged ‘bahia

10
out
08

pinguins e moquecas

pingüins invadiram salvador.

sério. sei que parece piada mais é verdade. não sei ao certo quando começaram a chegar, sei que chegaram aos montes. não dezenas, mas centenas – quase milhares.

os moradores de itapuan, na sua receptividade exacerbada, já nos primeiros dois dias da invasão esvaziavam seus refrigeradores para alojar as aves desengonçadas, que paradoxalmente em pouco tempo morriam congeladas.

em villas, algumas crianças pegaram para criar como animais de estimação, e passeavem entre as barracas de praias com os bichinhos na coleira. as beatas de madredeus já congelavam a sua carne vermelha para a semana santa de 2009, afinal, de certa forma o pinguim pode ser interpretado como peixe.

em jauá, terra que não respeita a privacidade nem das tartarugas, uma churrascaria colocou as criaturas em exposição no parque infantil. no mercado do peixe a famosa baiana não pensou duas vezes e lançou em primeira mão a moqueca de pinguim.

enfim, diferente dos demais turístas que vêem a bahia, os pinguins se deram mal.

eu pessoalmente nunca tinha visto um pingüim na minha vida. nem em zoológico, vagamente em filmes. nunca gostei de pinguins – parei de usar os tremas – nem em filmes. minto. o pinguim de batman era o máximo. era dany de vito.

enfim, estava eu no yatch clube da bahia, flutuando a caminho do flutuador, quando aparece uma criatura que a priori me pareceu um pato. um pato preto. como há uma diferença grande entre pato preto e cisne negro, e nenhum deles navega em água salgada, já ciente das histórias fantásticas, conclui que ao meu lado estava um pinguim.

ele olhou para mim e fingiu que não viu.

olhei para ele e sorri. nada feliz e mal sabe que escapou de virar moqueca no mercado do peixe…

Anúncios
06
out
08

salvador

havia 3 meses que não vinha a salvador.

meus pés não tocavam mais o chão, mas também não havia o impulso necessário para voar. minha mente hiperativa, mas também já começando a perder o foco. minha pele ainda mais branca, minhas olheiras mais fundas, meu sorriso menos fácil. o coração menos meu.

no canal brasil, wagner moura. o que lhe faz bem?, ir a salvador.

simples. fui. voltei.

a bahia é a fonte e a fuga. recicla e revela. encanta e acomoda. como um orixa, a bahia te provoca e te acolhe. a bahia deve, acima de tudo, ser respeitada.

fugi por um tempo da minha terra para encarar um outro mundo. deixei de lado qualquer possibilidade de visita.

veni, vidi, vinci.

mas foi somente voltando para salvador – sob o seu céu, dentro do seu mar – que pude entender o mundo que desvendei, as vitorias e as derrotas.

somente em salvador pude me entender.

25
jun
08

longe da civilização, perto da fé


passei os últimos 4 dias no interior da bahia, para as festas juninas.

num mundo tão louco, é interessante de tempos em tempos ter uma imersão numa fé tão simples quanto a fé católica pelos santos juninos no recôncavo.

em qualquer vilarejo, qualquer povoado em beira de estrada, na frente de qualquer casa ou barraco, lá estava uma família reunida e uma fogueira acessa para são joão.

o mesmo acontece para santo antônio na primeira trezena, e para são pedro na última.

minha terapia essa semana foi estar longe da internet e próximo desse tipo de fé.

o que faz com que me pergunte: – até que ponto há fé nas grandes cidades?

ou melhor: – que tipo de fé há nas grandes cidades?

embora eu tenha celebrado religiosamente todos os dias de são joão de minha vida no interior da bahia e ao pé da fogueira, sempre julguei ter um outro tipo de fé. talvez a das grandes cidades.

mas os anos acabam por nos deixar mais crentes, e foi nesta semana que, pela primeira vez, fiz um pedido e uma promessa para os 3 santos juninos.

e tenho fé em deus, são joão, são pedro e santo antônio, que serei atendido.

.

[ parte desse post se originou numa carta que enviei a uma amiga hoje cedo ]
07
jun
08

sun-maid, acarajé e pimenta


nelson rodrigues dizia que para ele a infância era somente cheiro. não tato, imagens, sons ou gostos: – cheiro. pra mim a infância é “gosto”, por outra, a infância para mim é a simples, irrefutável e pecaminosa gula.

não lembro de lugares, nomes, rostos ou situações, mas sinto – vejam bem: sinto – o sabor dos quitutes e das comidas da minha história.

a casa de meus avós paternos por exemplo, tem gosto de passas Sun Maid. minha avó culpa minha mãe, que assume em parte, mas que culpa minha avó. o fato inapelável é que fui sistemáticamente obrigado a comer passas Sun Maid, e pior: fui obrigado a gostar. desconfio que como uma vítima da sindrome de estocolmo, passei a gostar do meu algoz, que naquele momento estava personificado em uvas passas. a memória gustativa puxa a auditiva e lembro: “- é ferro meu filho!”. pela quantidade de passas que coloquei para dentro, ironia do destino seria morrer de anemia.

a casa de meu avós por parte de mãe tem gosto de bife com batatas fritas. a fazenda tem gosto de ovo frito e daqueles pães bem simples. o veraneio tinha gosto de carangueijo e o primeiro apartamento em que moramos tem gosto de biscoito de maizena com catchup…

este mesmo apartamento também nos revela um trauma. desta vez não por um gosto, mas sim pela ausência dele: na minha infância não havia presunto cozido sadia. pior. antes simplesmente não tivesse existido – a criança não sente falta do que não conhece – porém existia – e faltava. esse era o problema: a falta do sabor. meus pais negam e defendem-se, dizendo que isso é imaginação, uma memória inventada. talvez seja. mas o fato é que hoje sou um glutão devorador de frios de todos os tipos. ah, a fome na infância….

vilas do atlantico tem gosto de acarajé, e lá, também em vilas do atlantico, uma experiencia gastronomica marcou para sempre minha relação com a pimenta e com o mar. eu devia ser um criança nos seus 5 anos de idade. talvez um pouco mais. estavamos na praia. naquele tempo não havia as barracas nababescas que hoje dominam qualquer orla de quinta. naquele tempo havia tabuleiros e isopores de bebida. só.

pois bem, comi um acarajé batizado. um pedaço de acarajé com pimenta. lembro como se fosse hoje o desespero. o ardor. que gosto é esse? o que é isso? quem colocou pimenta no meu acarajé? (ainda hoje tenho um medo cabal de dividir um prato de acarajé com adeptos de pimenta) havia somente o desespero e eu estava só. não lembro da solidariedade de ninguém. nenhum tio, pai, amigo ou primo. eu estava só.

o leitor prático pode perguntar: por que não tomou um refrigerante? uma água? um chicabom?

não havia. ou não me deram. ou não pedi. não sei. o fato é que na luta contra a dor tomei uma decisão: ir ao mar. beber água do mar. e para mim a pimenta e o mar nunca mais foram os mesmos. nunca mais me acostumei nem com um nem com outro.

descobri na memória dos gostos um caminho para lembrar da infância que sabiamente esqueci. fechando como começamos, cito nelson: “o menino está enterrado no adulto como um sapo de macumba”. sigo explorando os sabores e as memórias de minha história para chegar à criança que sou, e para, quem sabe, encarar a vida como quem encara com gosto um acarajé com bastante pimenta.

.

11
fev
08

sunset de um carnaval


back from the jungle to the jungle. acabou a festa na floresta.

só para re-aquecer, uma nota rápida sobre carnaval.

apesar de todas as tentativas o carnaval da bahia continua o mesmo e continua lindo.

é a cultura popular viva dançando nas ruas. é o cheiro de acarajé e de mijo. são os blocos afros desfilando na madrugada (o gueto universal). é o rico junto com o pobre, dividindo a mesma música e divididos por uma corda. é o glamour cafona dos camarotes com seus convidados uniformizados. sao os afters, os pockets e as jams.

é o reinado de ivete sangalo. é a antipatia aristocrática de daniela. é a arrogância unânime do chiclete. é gil maestrando a avenida com o olhar. é caetano na pipoca. o carnaval é preta e toda sua diversidade, alegria, polêmica e cor.

encontro e reencontro: as amizades mais importantes de minha vida foram construídas de carnaval em carnaval.

é a resenha gostosa na madrugada ou no café da manhã e passar os dias recarregando as energias ao sol, seja em mar grande seja no yatch.

no carnaval já fui folião de bloco e de pipoca, patrocinador e patrocinado, artista e empresário, em cima de trio e de camarote. este ano fui prefeitura. carnaval é trabalho.

e foi esse envolvimento viceral com a maior festa do mundo que fez com que eu trocasse a inspiração pela transpiração e com que eu desse férias forçadas aos meus leitores.

mas o sol já se foi.

o ano começa.

sem promessas, agora é mostrar trabalho, respirar e inspirar.

.

13
mar
07

Afrocentrismo

Esses dias estive fazendo uma pesquisa para um evento baseado na cultura negra e descobri na wikipedia (www.wikipedia.org) uma teoria super interessante chamada “Afrocentrismo”.

A idéia é mais ou menos a seguinte… Toda nossa história foi baseada no ponto de vista europeu – eurocentrismo. Isso explica, por exemplo, a posição da Europa no centro da maioria dos mapa-mundi . Todo mundo deve ter aprendido isso na escola, na aula de estudos sociais, geografia ou história. É o tal do EtnoCentrismo.

Eu particularmente sou contra todo tipo de centrismo, mas por outro lado acredito que precisamos ter referências, pontos de vista que de uma forma ou de outra e que a partir de diversas perspectivas acabam por nos dar a devida noção de espaço.

Correndo o risco de ser simplista e superficial, o afrocentrismo em suma defende a tese de que o berço do conhecimento e do desenvolvimento da humanidade não é roma ou a grécia, mas sim o Egito. E que os egípcios na realidade eram negros. Portanto, a origem de tudo não só biologicamente, mas sociologicamente esta na raça negra.

Bom, até outro dia alguém tentava me convencer que os egípcios eram na realidade alienígenas, uma civilização extra-terrestre… Então já acho essa tese afrocentrista bem possível, talvez até tese mais realista que já ouvi em relação ao Egito.

Na realidade para mim não faz a menor diferença saber qual a etnia do povo que construiu aquelas maravilhas… achei o assunto somente interessante e se alguem quiser se aprofundar basta procurar a palavra “afrocentrism” na wikipedia.




colunas

www.pedrotourinho.me

Arquivos