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24
jul
08

conficções e buda||pest

amigos

acabei de finalizar o primeiro conto escrito on line, e uma das minhas primeiras experiências na ficção. chama-se buda||pest e, apesar de ser um conto, foi consebida em 4 “capítulos”.

segue links para quem quiser ler na ordem:

buda||pest I

buda||pest II

buda||pest III

buda||pest IV

espero que gostem.

Pedro

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24
jul
08

buda||pest – IV


nunca mais a vi.

depois daquela viagem nunca mais a vi. hoje, na mesma cidade de 10 anos atrás, vejo que sempre ficou em minha boca o gosto de ter perdido o destino. sem dúvida eu não dava chances para àquelas que poderiam ser as mulheres de minha vida. mais do que isso. depois daquela viagem ficou claro que eu não dava chance ao amor.

minha vida seguiu em relacionamentos rasos, repetições infames e eventualmente divertidas como a sessão da tarde. qualquer risco de amor e o coração me espancava, me enxotava para a rua, para a noite, para o vazio. um alarme que soava antes que eu me desse conta do “risco” de dar certo.

eu não entendia. procurava entender, mas não entendia. procurava vencer, mas perdia. no final, me entregava, me recolhia. finjo ter paciência. como aquela sereia houve outras. como aquele destino que perdi, também houve outros. e cá estou eu, só. o tempo não para. e sempre foi assim, desde criança.

talvez por isso tenha uma relação estranha com crianças. tenho medo.

todos conhecem a crueldade da infância, mas a impressão que tenho é de que no meu caso houve um exagero. não lembro de amigos. não lembro de inimigos. não lembro de vitórias nem de derrotas. não vivi amores, não vivi intrigas. tenho a nítida impressão de não ter vivido esta etapa de minha vida. e não há nada mais cruel do que a nulidade.

contudo, ironicamente, ainda queima viva em minha carne as memórias inexistentes de minha infância. a criança que pensa que não existiu vive ainda enterrada dentro de mim. e mesmo hoje, quando completo 33 anos, ela continua a me acompanhar. não desiste. é esta criança, e não eu, que tem medo de outras crianças.

a neblina ficava cada vez mais espessa, uma cortina de fumaça. o frio tremia meus músculos, espremia meus ossos, como para me lembrar de que ali ainda havia um corpo. a fumaça do cigarro não se misturava com a névoa, diferente dos meus pensamentos, que estavam em todo lugar, me sufocando. a lua, nossa senhora do silêncio, brilhava. naquele inferno gelado consegui um segundo de paz.

quando surgiu uma criança. devia ter algo em torno de 11 anos. poderia ser de qualquer nacionalidade ou etnia, inclusive húngara. estava só. solidamente só. ameaçadoramente só. como eu, só. embora hoje em dia não se diferencie mais roupas de adultos de roupas de crianças, aquele menino vestia uma roupa adequada a sua aparência de idade. ainda não consigo ver seu olhar, mas ele possui um passo decidido. diferente de mim, não parece apavorado.

quando o avistei, numa das extremidades da ponte, vindo de buda para peste, eu ainda permanecia no centro. no meio do caminho. sem saber ao certo para que lado seguir. não sabia se ia de encontro a criança, seguindo meu caminho original, se voltava para peste e, com passo acelerado, evitava o encontro, ou se permanecia onde estava. permaneci. alguma coisa me fazia ficar.

a criança se aproximou. possuía olhos azuis e não tive medo. por outra, tive paz. me encarou com um olhar rígido que não me pareceu ameaçador. seus olhos diziam tudo. estava em paz, o que não quer dizer que não houvesse tensão. de repente, pôs-se a falar húngaro, um idioma que eu não entendo, mas a única língua que o demônio respeita. e falava diretamente com meus demônios, com cada um deles.

desabei a chorar, como uma catarse. não entendia uma palavra do que estava sendo dito, e, sinceramente, não precisava entender. intuitivamente compreendi que não precisava mais escolher o deserto.

se era deus ou o diabo não sei. vinha de buda, o que é um bom sinal. mas não sei se os demônios respeitam deus tanto quanto a si próprios. daquele dia em diante não tive mais medo do amor. a criança perdeu o medo.

.

23
jul
08

buda||pest – III


coincidências como essas me assustam.

nunca esteve tão claro e tão próximo. não era amor, não era carinho ou caridade. era pura atração. simplesmente atração.

já estávamos a horas na cantina e de repente resolvemos todos sair e andar pela cidade. estranhamente não atravessamos ponte alguma. estávamos felizes em peste. fomos caminhando pela margem do danúbio em direção ao parlamento.

alguém tinha um baseado. minto. todos tinham. fomos fumando tranqüilamente pelas ruas, como se estivéssemos em amsterdam. nada mais ridicularmente natural do que a maconha. não consigo entender a caretice de uma sociedade que se droga diariamente com álcool, política, cigarro e lixo de celebridades. anfetamina, cafeina, sibutramina, cocaína e vitamina. energéticos, diuréticos e pretéritos. loucura maior neste escuro perseguir a maconha. não sou defensor, mal sei fechar, fumo socialmente. mas não sou idiota.

chapados e abraçados, atravessávamos a cidade. não chegamos a ir até o parlamento, resolvemos voltar. queríamos continuar juntos, bebendo e felizes. paramos num pub, numa rua paralela a vaci utca.

não havia nada de especial no pub a não ser o fato dele parecer irlandes e de estar aberto. eram grandes mesas, com sofás e cadeiras. o balcão ornamentado com garrafas de bebidas e máquinas de chopp era igual ao balcão de qualquer outro pub irlandes. atrás dele uma típica húngara. pequena, magra, cabelos pretos ondulados e escorridos. olhos fundos e nariz oblíquo. parecia saída de um campo de concentração. sentamos, e ao meu lado sentou a pequena sereia.

ela olhava para mim como se esperando algo. um sinal, um movimento, uma atitude. já estavamos conversando todos ha horas. tudo estava claro, evidente. tentei direcionar a minha atenção ao centro da mesa como para ganhar tempo. continuei no mesmo ritmo da tarde, contando histórias, bebendo intensamente. a sereia me olhava apaixonada. quanto mais desviava a atenção, mais ela me encarava. sem perceber, eu estava cantando para ela e não o oposto.

qual o problema se, afinal, eu também a desejava? o que me impedia se, afinal, eu a queria e sabia que poderia tê-la quando quisesse?

a história se repete. nesses momentos sinto-me como um paciente em coma, como um interno dopado, que vê a vida passando ao redor mas que não consegue dominar o próprio corpo, orientar os movimentos, espectador da vida a partir de um veículo que não pode ser dirigido. por inabilidade, inexperiência, carma ou o que quer que seja, o fato é que nem minha mente nem minhas emoções dominavam aquele corpo que inesperadamente tornara-se inerte.

se a dor é real, o coração não batia, mas sim me espancava por dentro. uma bomba atômica explodindo dentro de um corpo que simplesmente não responde.

naquela noite, mais uma vez, fugi.

[ … ]
22
jul
08

buda||pest – II


nem sempre sou assim.

há momentos de euforia, que podem durar horas, talvez dias. são como sonhos, em que, com o raciocínio rápido como um flecha e senso de humor felino, vivo feliz, mas me falta consciência. como diz schopenhauer, se a felicidade é sonho, a dor é real.

10 anos antes estava na mesma budapest. com os mesmos amigos. quase todos. desta vez no verão. fora uma viagem organizada às pressas, sem muito planejamento. estranho como essas iniciativas não planejadas acabam sendo as melhores. na realidade foi um conjunto de coincidências – ou sincronicidade – que fez com que todos estivéssemos no leste europeu no mesmo período. daí para rever roteiros e viabilizar o grande encontro seria fácil.

eu, como sempre, planejara viajar sozinho. confucio disse que ““é bom habitar entre os homens, e desfrutar de companhia. quem escolhe o deserto ou é descendente de anjos ou ainda não descobriu a sabedoria”. e eu já desconfiava qual era meu caso.

marcamos o encontro num restaurante italiano na vaci utca, principal walking street para turistas na cidade. no final da rua há uma praça, o belíssimo mercado municipal e um macdonald’s.

chamava-se “via luna”, e era uma daquelas cantinas baratas que servem pizza em massa de batata. as garçonetes pareciam abduzidas de filmes pornos da decada de oitenta, com maquiagem e cabelos inspirados nas bruxas de greenwich. apesar de tudo era bem localizado, com preço adequado e com um cardápio que não oferecia grandes riscos.

sempre sou o primeiro a chegar, mas desta vez não. enquanto caminhava pelo meio dos turistas já ouvia ao longe as risadas. era uma mesa grande, e eu mal podia esperar para chegar. estava feliz, seguro, inspirado, e sabia disso.

abraços, beijos, risos e em poucos segundos já estava conversando mais uma vez com johnnie. brincava com tudo e com todos, mas sobretudo comigo mesmo. disparava piadas. ria e fazia rir com minhas histórias na maiora das vezes reais, mas sempre com um toque de invencionice. naquele contexto todos já sabiam que as histórias eram muito menos interessantes do que a forma como eram contadas. naquele momento eu era o centro das atenções, e estava feliz.

a maioria das pessoas já se conheciam, mas sempre há um conhecido que traz outro, ou uma amiga que não viaja sozinha e leva outras amigas. e no meio daquele grupo heterogenio havia um grupo de dinamarquesas. três. a dinamarca é fascinante por ser cosmopolita e hippie ao mesmo tempo, é união européia mas também é groelândia. e seu povo e suas mulheres seguem a mesma linha. quando feias são meio vikings, meio trolls. quando belas são belíssimas e languidas, pequenas sereias. e este era o caso das três. sorte.

chamei a atenção de uma delas, que chamou minha atenção. foi mútuo, instantâneo e simultâneo. raro. apesar do meu carisma, que vai e volta, o sincronismo é raro. normalmente ela quer e eu não quero. ou eu quero e ela não quer. sendo que a primeira variável é a mais freqüente.

desta vez nós dois queríamos.

[ … ]
18
jul
08

buda||pest – I


gosto de andar sozinho pela noite.

budapeste. diferente do verão, quando a cidade transforma-se numa terma e as noites são mais quentes do que as manhãs, estávamos já no final de outono, e o céu parecia acreditar que já era inverno.

havia passado a primeira metade da noite num pub gerenciado por um hungaro mais irlandes do que os irlandeses. estava com muitos amigos. amigos queridos. uma energia tão pura e intensa como àquelas somente possíveis quando estamos longe de casa. e tudo ia bem.

mas o frio me deixa melancólico, e pior: – me faz fumante. nunca fumei cigarro. enquanto todos os meus amigos aos 15 mamavam nos adocicados gudang garam, eu já havia começado minha inseparavel amizade com johnnie walker, com quem, diga-se de passagem, me relaciono até hoje. nunca vi lógica num fumo que fede mais do que a maconha, que tem mais nicotina do que o cigarro e que não bate onda. no frio não fumo gudang garam, mas trago qualquer outra coisa que aparecer em minha frente.

voltando ao frio, ele me deixa melancólico e fumante. e budapeste é a cidade perfeita para fumantes, melancólicos e suicidas. há uma ponte a cada 100 metros. pontes belíssimas, umas mais antigas, outras mais modernas. não há em budapeste uma ponte igual a outra. elas simplesmente não se repetem. e todas sobre o rio danubio, que não é, nem jamais foi, azul, mas sim de um tom lugubre, magenta, de uma escuridão que nada tem a ver com poluição, mas sim com paz de espírito.

são 9 pontes que ligam buda a peste. buda foi fundada por romanos, em 89 antes de cristo. alguns anos depois, do outro lado do rio, um pequeno povoado crescia rapidamente através do comercio. foi ali, por conta do capitalismo, que nasceu peste. não deixa de ser irônica a semiótica – e o senso de humor – do universo ao criar uma cidade da fusão de buda com a peste.

de volta ao pub, eu já não conseguia mais ficar ali. a alegria, a leveza e a paz daquele momento me levava a outros momentos que não voltariam mais. música, velas, risos e lágrimas. por que gostamos tanto de sofrer? por que nos apaixonamos por pessoas, lugares e momentos mesmo tendo a certeza de que um dia iremos nos separar? por que os momentos passam? alguns momentos tem a força de uma eternidade, mas são apenas alguns momentos, e passam.

a lembrança do que passou, e a esperança e descrença no que estava por vir, me impediam de viver aqueles minutos de eternidade. como um mestre dos magos, desapareci.

foi entre o bem e o mal, melancólico e fumante, sob o danúbio azul, em uma das nove pontes de budapeste que me refugiei. a temperatura devia ser de no máximo 4 graus. uma neblina densa me colocava numa outra dimensão. johnnie, que me acompanhara até aquele momento, já havia me deixado só. eu já vivenciava um daqueles momentos únicos e intensos de lúcidez. in vino veritas.

foi da contemplação que surgiu o silêncio, e ali tive um encontro que mudaria minha vida.

[ … ]



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