Posts Tagged ‘critica

19
abr
09

paul mccartney – redemption songs

paulmccartneyA escolha das músicas de um repertório pode dizer muita coisa sobre a mensagem que o artista quer passar ao público durante seu show. Paul McCartney, 66, sabe disto, e tinha muito a dizer naquela primeira noite do Coachella Festival, no deserto californiano.

Já fazia muitos anos que Paul não tocava para um público tão jovem e diverso quanto o daquela noite. Nos 10 anos do Festival, Dividiu o lineup do dia com bandas como Franz Ferdinand, Morrisey, Ting Tings, Buraka Som System e Molotov. Sem dúvida não era um show qualquer pra um público qualquer.

O que esperar de uma apresentação de Paul? 4 ou 5 músicas do tempo do Wings, 5 ou 6 mais atuais da carreira solo e alguns dos seus hits preferidos dos Beatles, entre eles ‘Yesterday’ e ‘Hey Jude’.  Nada mais, nada menos. Mas aquela não era uma noite qualquer, e Paul fez a mesma coisa de sempre, só que de um jeito diferente.

Como que deixando claro que tratava-se de Rock, começou com ‘Jet’ (Wings) e ‘Drive My Car’, uma escolha não obvia dos Beatles. Seguiu com ‘Only Mamma Knows’, ‘Flaming Pie’ e ‘Got to Get You Into My Life’, até que tocou a música que selou a paz entre ele e John Lennon no início da carreira solo de ambos: ‘Let Me Roll It”.

Já sem a jaqueta, ao piano tocou ‘Long and Winding Road’, visivelmente emocionado. Naquele noite, 17 de Abril, fazia 11 anos que Linda McCartney tinha falecido no deserto do Arizona. “She loved the desert, she loved Rock n’Roll, she loved it all.” E dedicou a música anterior e a seguinte, ‘My Love’, a Linda. “It’s an emotional day for me. That’s good… that’s ok.”

Se o deserto parece o lugar certo para fazer as pazes com o passado, Paul não queria perder a oportunidade naquela noite. Em ‘Here Today’, travou uma conversa imaginaria com Lennon, “you were in my song, here today”. Paul sabe que John Lennon, muito mais do que ele próprio, estaria totalmente em casa num festival como o Coachella.

Depois de mais um set com músicas de Fireman, Band on The Run, e até um vídeo com o semblante de Obama durante a música ‘Signs of Change’, Paul puxa um ukelele, instrumento musical parecido com uma guitarra havaiana, que lhe foi presenteado por George, e dedica a ele a música ‘Something’. Muitos não conseguiram conter as lagrimas na plateia de mais de 50 mil pessoas.

Com se John e George estivessem no palco, Paul ficou mais a vontade e tocou uma sequência de hits dos Beatles como ‘I’ve Got a Feeling’, ‘Paperback Writer’, ‘Let It Be’, ‘Hey Jude’, ‘Can’t Buy me Love’, ‘Lady Madonna’, ‘Birthday’ e ‘Yesterday’.

Num dos momentos mais emocionantes do show, tocou ‘A Day in the Life’, talvez a música que deixa mais clara a diferença entre os mundos de Paul e John e como o encontro disso tudo pode ser maravilhoso e apoteótico. Entoou o coro pacifista de Lennon ‘Give Peace a Chance’, transportando o público jovem do Coachella aos anos 70, e ao mesmo tempo reafirmando que cantar “paz e amor” jamais sairá de moda.

No último bis, ‘Helter Skelter’, ‘Get Back’ (“do you want to get back? I want to get back!”), ‘Sgt Pepper’ e ‘The End’. Nunca subestime a força de um Beatle, diziam os jornais americanos no dia seguinte.

Em festa com sua história e com as pessoas que fizeram parte dela, talvez a mensagem de Paul daquela noite pudesse ser resumida pelo seu último verso no show: “and in the end the love you take is equal to the love you make”. Paul McCartney deu e recebeu muito amor naquela noite no deserto de Coachella, noite que jamais poderia ser uma qualquer.

[ integra do artigo originalmente públicado na minha coluna no http://www.onspeed.com.br ]

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17
abr
09

black is power, black is beautiful

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O Hip Hop é a celebração da cultura de periferia que venceu. Por tudo e apesar de tudo, venceu, é dominante e extrapolou os limites do Harlem e da MTV. Hoje o palco da cultura hip hop é o mundo, e um dos mais interessantes retratistas dessa cultura e linguagem é o artista plástico Kehinde Wiley, que abriu aqui em Los Angeles, no sábado, sua exposição “World Stages: Brazil”

Nascido em Los Angeles, estabelecido no Harlem em NY, Wiley é negro e só pinta negros. Retratos heróicos do status e da força que sua raça tem na cultura contemporânea. As pinturas, em telas muitas vezes enormes, espantam pelo realismo, e tanto em relação às referencias quanto pela técnica, são influenciadas pelas obras de arte renascentistas. Mas dá um passo além dos italianos: – Wiley agora coloca o negro no centro do universo. Black is Power, Black is Beautiful.

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E como todos que se propõem a colocar-se no centro do universo, o resultado acaba muitas vezes por soar arrogante. O que enquanto arte não é ruim. E aproxima ainda mais seu trabalho do Hip Hop, um genero que na sua própria definição  “it’s about people who were left out, people who want to sort of push their egos out into the world and have this bombastic, self-pleasing, misogynistic presence”.

Nesta exposição com foco no Brasil, Wiley retratou negros e mulatos cariocas, utilizando suas próprias roupas, mergulhados em estampas vibrantes, na maioria florais, num universo plástico urbano e barato . Morro, praia, carnaval e Flamengo claramente presentes. O resultado visual é uma apoteose de cores e expressão. É Brasil, mas vai além.

Observando toda a obra de Wiley, que navega por inspirações como o Hip Hop, o Harlem, a Africa e agora esta série no Rio de Janeiro, fica claro que a unidade de seu trabalho esta na capacidade de captar no negro um certo olhar de orgulho, um olhar que provoca, desafia, brinca. Um olhar com a força e a arrogância dos vencedores. Diferente do mais comum em Salvador, Havana ou New Orleans, é um orgulho negro desgarrado da matriz africana. O mérito deste olhar é consequencia do agora, não de quanto eles têm no bolso, mas do que eles representam na cultura hoje. A cultura do gueto que venceu.

Kehinde Wiley
The World Stage: Brazil
April 4 – May 30, 2009
Opening Reception Saturday, April 4th, 6 – 8pm

ROBERTS & TILTON
5801 Washington Boulevard
Culver City, California 90232
T 323.549.0223

[ publicado originalmente na minha coluna na http://www.onspeed.com.br ]

29
mar
08

40 | 60


não consigo me imaginar aos 60.

durante toda a minha vida achei que por um ou outro motivo não chegaria aos 40. sempre que falava isso minha mãe tinha calafrios e meus irmãos sorriam. eu achava bonito ter essa certeza “profética”, e no fundo achava comodo não durar tanto tempo.

se eu não chegasse aos 40, não teria de me preocupar com aposentadoria. o que significa torrar ainda jovem tudo que se ganha. significa não ter de parar aos poucos, significa frear de uma vez só, a qualquer momento. dizia (e as vezes ainda digo) com o peito cheio: – quem garante que estarei vivo amanhã?

talvez por trás disso tudo, mais do que o medo de morrer, havia o medo de viver.

Estou falando de mim e a intenção era falar dos stones.

terça-feira fui assistir a pré-estréia do filme ” shine a light”, de martin scorcese sobre os rolling stones. fui com solari, uma das pessoas mais legais que conheci recentemente. cheguei com todas as expectativas e ao mesmo tempo com nenhuma. tinha visto um trailler que era mais engraçado do que esclarecedor. por outro lado um filme de martin scorcese por pior que seja não deve ser de se jogar fora.

por uma ou por outra, sai do cinema fascinado. o filme é a gravação de um show intimista dos stones – sem grandes palcos ou grandes públicos – filmado por 16 cameras manejadas por 16 técnicos ganhadores do oscar, e editado e dirigido por martin scorcese. estrelas de um lado e estrelas do outro.

nos primeiros minutos o grande mistério era procurar entender qual o corte que scorcese queria dar aquele espetáculo. qual a sua intenção. por qual ótica ele queria nos mostrar os rolling stones. o mistério não durou muito.

scorcese nos coloca no palco e na platéia ao mesmo tempo. podíamos ver todas aos rugas de mick jagger enquanto tentávamos nos desviar da pessoa da frente. ficávamos cegos com a luz ao mesmo tempo que podíamos ver a cumplicidade no palco. não sabia se as palmas eram da plateia do cinema ou da engenharia de som do filme (produzido para cinemas IMAX). destaca a dimensão humana dos gênios e por isso mesmo os faz ainda mais geniais.

eu pessoalmente, um ocioso convicto, me impressionei mesmo com o folego. mais do que com a energia, tesão, vocação, carisma, etc… o que tirou meu sono foi o folego.

os sujeitos passam a vida entregues a drogas, orgias, bebidas e tudo o mais que a criatividade humana pode oferecer… tudo que me repetiram o tempo inteiro para não fazer, eles provavelmente já fizeram em excesso. e cá estou eu, pensando em não chegar aos 40, e eles lá, ricos, trabalhando e vivos aos 60.

o segredo? um amigo logo disse: – ” dinheiro!” outro palpitou: – ” fazer o que gosta!” . eu acho que é um pouco dos dois.

na mesma semana, outro exemplo: maria bethania


bethania aos 60 não é só mais apaixonante como também é mais sensual do que aos 20. na quinta-feira fui ao seu show com omara portuondo, uma cubana também muito sensual aos 70, e fiquei impressionado não com a energia ou o folego, mas com a intensidade. tudo em bethania é intenso. é entrega. é gana. nela ainda vive o carcará.

não foi o melhor show de bethania que já vi. talvez tenha sido o pior. mesmo assim foi lindo. e foi intenso. a riqueza do show de maria bethania está nos detalhes, na luz, no cenário – que docemente cafona como a américa latina, para mim foi o grande destaque.

o sucesso e a longevidade de personalidades aparentemente tão diferentes nos mostra que o mais importante não é necessariamente como se leva a vida – seja ela com fé ou com drogas – mas sim o que se realiza.

scorcese é de 46, bethania de 43 e mick jagger de 42. omara nasceu em 1930. no palco, bethania já não era aquela menina de santo amaro. assim como mick jagger também não era mais aquele. ambos tinham a força, o folego, a energia e a maturidade que só o tempo e o sucesso traz.

e de repente desejei estar ali, me sentir naquela plenitude. e uma semana em são paulo talvez tenha resolvido o que algumas terapeutas tentaram em vão.

ainda não consigo me ver aos 60, mas pelo menos já sei como quero estar.

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