Posts Tagged ‘cronicas

30
jun
09

Thriller

MJ

Não gosto do Michael Jackson.

Para ser ainda mais sincero, ele desapareceu para mim depois das inúmeras acusações e suspeitas sobre seu relacionamento com as crianças que ele levava para conhecer o rancho Neverland, sua casa e parque de diversões. Mudar de cor, contrariar dívidas e mais dívidas, expor seus filhos, muito disso pode ser perdoado, mas há limites.

Já não posso falar o mesmo em relação a sua obra. Michael Jackson foi a primeira criança e o primeiro negro a tornar-se universalmente POP. Ele mudou todos os padrões da industria do entretenimento. Nunca ninguém, nem mesmo os Beatles, conseguiram chegar a marca estimada de 70 milhões de discos vendidos em todo o mundo com apenas um album, Thriller, em 1982.

Sempre muito tímido fora dos palcos, quando entrava em cena se transformava. Não era mais Michael, o menino inseguro com medo de crescer. Era Michael Jackson, o Rei do Pop. Voz, dança, movimentos, passos, tudo era novo e tudo era só dele. Reconhecido pelo Guiness Book como o mais bem sucedido astro do entretenimento de todos os tempos, com 13 grammys e 750 milhões de discos vendidos em sua carreira, Michael Jackson é imbátivel. Mas há o outro Michael.

Quando saiu a notícia de que ele teria tido um enfarte fulminante e estava internado a poucos metros de minha casa, no hospital da UCLA, não pensei duas vezes e fui até lá acompanhar este momento inesquecível para a história da Música.

Além do circo da imprensa, havia muitos fãs ao redor, com maquinas digitais, telefones celulares, captando imagens, informações e transmitindo pelo mundo através de suas respectivas redes sociais. Pequenos iPods com caixas de som portáteis por toda parte tocavam músicas que foram lançadas há pelo menos 25 anos.

Vi um grupo de estudantes, todos com não mais de 15 anos de idade, repetindo a coreografia de Thriller em frente ao hospital. Crianças vestidas com chapéus e luvas passeavam no colo dos seus pais. Pessoas do mundo inteiro com cartazes, capas de discos, velas acesas. Um pouco mais a frente, um sósia chamava a atenção de todos ao repetir o clássico moonwalk.

Por que estavam ali? Por gostarem de Michael Joseph Jackson? Acho que não. Aquele ser humano talvez não merecesse tudo isso. Estávamos ali para nos despedir do homem e abraçar sua obra. Como todos, ele errou muito, mas sua música, dança e performance estão acima de qualquer julgamento moral ou criminal. É arte e é para sempre. Na quinta-feira Michael libertou sua obra dele mesmo.

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17
mar
09

redemption

somos racistas.

somos vítimas de estereótipos culturais históricos. somos vítimas de um preconceito inconsciente colocado e reforçado diariamente em nossas mentes. como o doente que não mais sente a própria perna, nós continuamos a nos ferir, exatamente por não sentir a dor.

disfarçado de boas intenções, camuflado em sorrisos amarelos, transformado e renomeado ‘preconceito social’. vitimas de um perigoso e injusto silogismo. brancos, amarelos, pardos ou negros temos a ilusão de um controle que não temos.

esta consciência, que por um lado parece nos redimir, na realidade aumenta ainda mais nossa responsabilidade em relação ao futuro. se “liberdade é conhecer os condões que nos manipulam”(spinoza), redenção é de alguma forma lutar contra eles.

“emancipate yourselves from mental slavery, none but ourselves can free our minds.”(marley)

a consciência do problema já está ai. a questão agora é: – o que vamos fazer com ela?

é a consciência com atitude que nos define.

[a sugestão deste vídeo veio do blog do zeca]

21
out
08

banda.larga

[ gil tocando lennon ]

não lembro do meu primeiro contato com a obra de gil.

acho que fui ouvindo enquanto vivia, e como tantas coisas que a gente conhece desde sempre, desde sempre de alguma forma fez parte do meu habitat, do meu universo. portanto, apesar de sempre presente, o início da relação não foi em si marcante.

lembro quando conversei com ele a primeira vez. num desses carnavais, fui parar num almoço na casa dele a convite de preta, hoje grande amiga. eu tinha chegado mais tarde, me servi e sentei só numa mesa nem perto, nem longe do burburinho. depois sentou mais alguém, depois sentou gil.

admiro pessoas que sentam despretensiosamente na mesa com outras pessoas que não conhecem, mesmo que na própria casa. nos cumprimentamos, trocamos algumas palavras, nada demais, mas para mim foi muito especial.

o mundo gira, a vida dá os nossos passos, e hoje estamos tocando juntos com a gege, sua produtora, um projeto bem inspirador de conteúdo livre para o carnaval. projeto totalmente inspirado em sua vida e em seu discurso.

quando tiver tudo mais certo coloco os detalhes e resultados aqui.

essa semana ele estréia seu show banda larga em são paulo.

estarei lá!

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15
out
08

43


há pouco mais de 2 anos fiz uma promessa de não falar mais de política em meu blog ou em qualquer lugar.

mas vou abrir uma exceção em nome de outra exceção chamada Fernando Gabeira.

sou baiano, moro em são paulo mas não posso fingir que não vejo o novo. ainda mais quando o novo vem do rio de janeiro, hoje minha segunda casa.

gabeira aos 65 anos é o que há de mais novo na política brasileira por um motivo muito simples: ética.

ele é uma exceção pela ética. é coerente em relação ao que diz e o que faz. integro. verdadeiro. responsável. vanguarda. ele representa o que há de melhor no brasil, o que há de melhor no rio de janeiro. um brasil acima da bossa nova. liberal, tolerante e ainda assim integro.

não consigo resistir em pensar que basta uma boa experiência com a ética para o brasileiro entender que é possível ter um brasil melhor simplesmente sendo uma pessoa melhor.

precisamos apenas de um bom exemplo.

posso estar enganado, mas quero crer que este exemplo é Gabeira.

para o carioca de cidadania, vote 43. para o carioca de espírito, pense 43.

10
out
08

pinguins e moquecas

pingüins invadiram salvador.

sério. sei que parece piada mais é verdade. não sei ao certo quando começaram a chegar, sei que chegaram aos montes. não dezenas, mas centenas – quase milhares.

os moradores de itapuan, na sua receptividade exacerbada, já nos primeiros dois dias da invasão esvaziavam seus refrigeradores para alojar as aves desengonçadas, que paradoxalmente em pouco tempo morriam congeladas.

em villas, algumas crianças pegaram para criar como animais de estimação, e passeavem entre as barracas de praias com os bichinhos na coleira. as beatas de madredeus já congelavam a sua carne vermelha para a semana santa de 2009, afinal, de certa forma o pinguim pode ser interpretado como peixe.

em jauá, terra que não respeita a privacidade nem das tartarugas, uma churrascaria colocou as criaturas em exposição no parque infantil. no mercado do peixe a famosa baiana não pensou duas vezes e lançou em primeira mão a moqueca de pinguim.

enfim, diferente dos demais turístas que vêem a bahia, os pinguins se deram mal.

eu pessoalmente nunca tinha visto um pingüim na minha vida. nem em zoológico, vagamente em filmes. nunca gostei de pinguins – parei de usar os tremas – nem em filmes. minto. o pinguim de batman era o máximo. era dany de vito.

enfim, estava eu no yatch clube da bahia, flutuando a caminho do flutuador, quando aparece uma criatura que a priori me pareceu um pato. um pato preto. como há uma diferença grande entre pato preto e cisne negro, e nenhum deles navega em água salgada, já ciente das histórias fantásticas, conclui que ao meu lado estava um pinguim.

ele olhou para mim e fingiu que não viu.

olhei para ele e sorri. nada feliz e mal sabe que escapou de virar moqueca no mercado do peixe…

30
jun
08

o jogo, a lady e a vizinha


a industria das celebridades não é tocada por profissionais, mas também não é para principiantes. entre flashs, assessorias, paparazzis, jornalistas, alpinistas, notas, notinhas, capas e contra-capas, existe seres humanos?

para simples mortais, as revistas transformam-se na visão dos sonhos que não são necessariamente deles, mas que lhes fora imposto.

para grande parte dos celebres, é o lago de eco onde, como narciso, se apaixonam e não cansam de contemplar ou odiar a própria imagem.

e é o ganha pão de uma classe de comensais, que vive das migalhas da rotina de pessoas como a mulher melancia, que ontem era manchete de 4 das 5 notícias mais lidas do portal globo.com

“a mídia é igualzinha a língua da vizinha”, cantou o poeta novo baiano. é a grande verdade: a boca do inferno, o veneno da madrugada, o falar da vida alheia existe desde que existem as vizinhas. só muda a amplitude e as cifras. o jogo é o mesmo.

e, como disse, saber jogar esse jogo não é para principiantes. a pessoa que melhor soube jogar o jogo da mídia, morreu num túnel, perseguida pelos mesmos paparazzis que alimentou a vida inteira. no final, morta, entrou para a eternidade. seria este o premio e o preço mais alto da fama?

este jogo é como a máfia: uma vez dentro, não há como sair. e se todos terão seus 15 minutos de fama como previu warhol, estamos também todos juntos na mesma arapuca.

conselho de quem não é famoso, não vive disso, mas de alguma forma vive isto: não acredite no que lê sobre você ou sobre os outros. não responda. não reaja. não entre na loucura. não alimente a fera.

se for jogar – como eu jogo – faça consciente dos riscos, das perdas e ganhos, como quem aposta alto numa mesa de pôquer.

e mesmo que todos te afirmem o contrário, não acredite que você é, ou deveria ser, o que está escrito somente porque está escrito.

lembre-se sempre de quem você é ou deveria ser.

porque no final é isto que está em jogo.

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25
jun
08

longe da civilização, perto da fé


passei os últimos 4 dias no interior da bahia, para as festas juninas.

num mundo tão louco, é interessante de tempos em tempos ter uma imersão numa fé tão simples quanto a fé católica pelos santos juninos no recôncavo.

em qualquer vilarejo, qualquer povoado em beira de estrada, na frente de qualquer casa ou barraco, lá estava uma família reunida e uma fogueira acessa para são joão.

o mesmo acontece para santo antônio na primeira trezena, e para são pedro na última.

minha terapia essa semana foi estar longe da internet e próximo desse tipo de fé.

o que faz com que me pergunte: – até que ponto há fé nas grandes cidades?

ou melhor: – que tipo de fé há nas grandes cidades?

embora eu tenha celebrado religiosamente todos os dias de são joão de minha vida no interior da bahia e ao pé da fogueira, sempre julguei ter um outro tipo de fé. talvez a das grandes cidades.

mas os anos acabam por nos deixar mais crentes, e foi nesta semana que, pela primeira vez, fiz um pedido e uma promessa para os 3 santos juninos.

e tenho fé em deus, são joão, são pedro e santo antônio, que serei atendido.

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[ parte desse post se originou numa carta que enviei a uma amiga hoje cedo ]



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