Posts Tagged ‘cultura

27
maio
09

O Corpo – Foucault

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Basta eu acordar, diz Foucault, que não posso escapar deste lugar, o meu corpo.

Posso me mexer, andar por aí, mas não posso me deslocar sem ele. Posso ir até o fim do mundo, posso me encolher debaixo das cobertas, mas o corpo sempre estará onde eu estou. Ele está aqui, irreparavelmente: não está nunca em outro lugar. Meu corpo é o contrário de uma utopia. Todos os dias, continua Foucault, eu me vejo no espelho: rosto magro, costas curvadas, olhos míopes, nenhum cabelo mais… Verdadeiramente, nada bonito. Meu corpo é uma jaula desagradável. É através de suas grades que eu vou falar, olhar, ser visto. É o lugar a que estou condenado sem recurso.

É possível que contra esse corpo tenham nascido todas as utopias, dele nasce a utopia original –a de um corpo incorporal: o país das fadas, dos elfos, dos gênios, onde as feridas se curam imediatamente, onde caímos de uma montanha sem nos machucar, onde podemos ficar invisíveis.

Há outra utopia dedicada a desfazer o corpo é o país dos mortos. A múmia é o corpo utópico que desafia o tempo. Há as pinturas e esculturas dos túmulos, que prolongam uma juventude que nunca vai passar, que será eterna. Meu corpo se torna sólido como uma coisa, e eterno como um deus.

A outra, a maior utopia criada contra o corpo é o grande mito da alma, que funciona maravilhosamente dentro do meu corpo, mas escapa dele. É bela, pura, branca, ao contrário do meu corpo. Durará para sempre. É meu corpo luminoso, purificado.

Assim, pela mágica dessas utopias, meu corpo pesado e feio desaparece magicamente. Recebo-o de volta fulgurante e perpétuo.

Mas meu corpo, nele mesmo, seus recursos próprios de fantástico. Tem lugares sem-lugar. Tem seus lugares obscuros e praias luminosas. Minha cabeça é uma estranha caverna, com duas aberturas, meus olhos. E, se as coisas entram na minha cabeça, ficam ao mesmo tempo fora delas.

Corpo incompreensível, penetrável e opaco, aberto e fechado: corpo utópico. Absolutamente visível –porque sei o que é ser visto e ver os outros. Mas esse corpo é também tomado por uma certa invisibilidade: minha nuca, por exemplo. Minhas costas: conheço seus movimentos, sua posição, mas não as vejo. Corpo que é um fantasma, que só posso ver pelo truque, pela miragem de um espelho.

Esse corpo não é uma coisa: anda, mexe, quer, se deixa atravessar sem resistências por minhas intenções. Só quando estou doente –dor de estômago, febre–  ele se torna coisa, opaca, independente de mim.

Não, o corpo não precisa de fadas e almas para ser utópico, visível e invisível, transparente e concreto. Para que eu seja utopia, preciso apenas ser… um corpo. As utopias não apagam o corpo: nasceram dele, para só depois, talvez, voltarem-se contra ele.

Uma coisa, entretanto, é certa: o corpo humano é o ator principal de todas as utopias. O sonho de um corpo imenso, o mito dos gigantes, de Prometeu, é uma utopia. O sonho de voar também.

O corpo é também ator utópico quando se pensa nas máscaras, na tatuagem, na maquiagem. Não se trata, aqui, propriamente, de adquirir um outro corpo, mais bonito ou reconhecível.

Trata-se de fazer o corpo entrar em comunicação com poderes secretos, forças invisíveis. Uma linguagem enigmática e sagrada se deposita sobre o corpo, chamando sobre ele o poder de um deus, a força surda do sagrado, a vivacidade do desejo. Fazem do corpo o fragmento de um espaço imaginário, que entra em comunicação com o universo dos outros, dos deuses, das pessoas que queremos seduzir.

O corpo é arrancado de seu espaço próprio e arremessado a um outro espaço. As vestimentas religiosas, por exemplo, fazem o indivíduo entrar no espaço cercado do sagrado, ou na comunhão da sociedade. Tudo o que toca no corpo, uniformes, diademas, faz florescerem as utopias internas do corpo.

E a carne nela mesma pode ser também utópica. Faz o corpo voltar-se contra si: o outro mundo, o contra-mundo, penetra nesse corpo, que se torna produto de seus fantasmas: o corpo de um dançarino, por exemplo, é um corpo dilatado pelo espaço –espaço que lhe é interior e exterior ao mesmo tempo. O corpo do mártir acolhe a dor e a salvação. O corpo de um drogado, de um possuído, de um estigmatizado, recebe em si o que lhe é exterior.

Bobagem dizer portanto, como fiz no início, que meu corpo nunca está em outro lugar. Meu corpo está sempre em outro lugar. Está ligado a todos os outros lugares do mundo, e está num outro lugar que é o além do mundo. É em relação ao corpo que existe uma esquerda e uma direita, um atrás e um na frente, um embaixo e um em cima.

O corpo está no centro do mundo, nódulo utópico a partir do qual penso, sonho, me comunico. O corpo, como a Cidade de Deus, não tem lugar, e é de lá que se irradiam todos os lugares possíveis.

Apenas o espelho e o cadáver selam e calam essa voragem utópica. Os dois estão num outro lugar impenetrável, mas nesse momento já não sou eu mesmo. Para que eu seja eu mesmo, no meu corpo, sem utopia, é preciso uma situação bem definida. Só o ato amoroso, quando nos entregamos a ele, acalma a utopia do nosso corpo: por isso é tão próximo, no imaginário, ao espelho e à morte. É porque só no amor o meu corpo está AQUI.

fonte: blog marcelo coelho – folha

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16
maio
09

Man with Kaleidoscope Eyes

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Como transformar música em gravura? Som em cores? Ritmo em forma?

Só nesta última semana consegui ir a exposição Tripping the Art Fantastic, maravilhosamente psicodélica na Mr. MusicHead Gallery, Sunset Blvd, de um artista chamado Alan Aldridge. Sua especialidade: – traduzir música.

Segundo Nick Mason do Pink Floyd: “Who needs drugs when Alan is available to translate music into visual imagery?”

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Sua grande obra foi o livro “The Beatles Lyrics Illustrated”, lançado em 1969 e hoje peça de colecionadores. Depois disso fez muitos outros trabalhos ainda com os Beatles, Rolling Stones, fez o celebre cartaz do filme de Andy Warhol, Chelsea Girls, capas de discos do The Who, Elton John, e Incubus.

Ano passado ele lançou uma biografia/exposição/coletanea de seus trabalhos chamada “Alan Aldridge – the Man with the Kaleidoscope Eyes”, que até pouco tempo estava exposta no Design Museum em Londres. Além das gravuras, o livro contem entrevistas incríveis com a maioria dos artistas com quem ele trabalhou.

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Conhecer o trabalho de Alan Aldridge é reviver a necessidade que aquela geração tinha de traduzir visualmente a explosão de sensações que passaram a experimentar depois da descoberta dos efeitos lisérgicos da música e da liberdade.

A exposição esta somente esta semana na Mr. MusicHead Gallery, 7511 W Sunset Blvd, aqui em Los Angeles. Mais informações sobre o artista no seu site.

17
abr
09

black is power, black is beautiful

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O Hip Hop é a celebração da cultura de periferia que venceu. Por tudo e apesar de tudo, venceu, é dominante e extrapolou os limites do Harlem e da MTV. Hoje o palco da cultura hip hop é o mundo, e um dos mais interessantes retratistas dessa cultura e linguagem é o artista plástico Kehinde Wiley, que abriu aqui em Los Angeles, no sábado, sua exposição “World Stages: Brazil”

Nascido em Los Angeles, estabelecido no Harlem em NY, Wiley é negro e só pinta negros. Retratos heróicos do status e da força que sua raça tem na cultura contemporânea. As pinturas, em telas muitas vezes enormes, espantam pelo realismo, e tanto em relação às referencias quanto pela técnica, são influenciadas pelas obras de arte renascentistas. Mas dá um passo além dos italianos: – Wiley agora coloca o negro no centro do universo. Black is Power, Black is Beautiful.

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E como todos que se propõem a colocar-se no centro do universo, o resultado acaba muitas vezes por soar arrogante. O que enquanto arte não é ruim. E aproxima ainda mais seu trabalho do Hip Hop, um genero que na sua própria definição  “it’s about people who were left out, people who want to sort of push their egos out into the world and have this bombastic, self-pleasing, misogynistic presence”.

Nesta exposição com foco no Brasil, Wiley retratou negros e mulatos cariocas, utilizando suas próprias roupas, mergulhados em estampas vibrantes, na maioria florais, num universo plástico urbano e barato . Morro, praia, carnaval e Flamengo claramente presentes. O resultado visual é uma apoteose de cores e expressão. É Brasil, mas vai além.

Observando toda a obra de Wiley, que navega por inspirações como o Hip Hop, o Harlem, a Africa e agora esta série no Rio de Janeiro, fica claro que a unidade de seu trabalho esta na capacidade de captar no negro um certo olhar de orgulho, um olhar que provoca, desafia, brinca. Um olhar com a força e a arrogância dos vencedores. Diferente do mais comum em Salvador, Havana ou New Orleans, é um orgulho negro desgarrado da matriz africana. O mérito deste olhar é consequencia do agora, não de quanto eles têm no bolso, mas do que eles representam na cultura hoje. A cultura do gueto que venceu.

Kehinde Wiley
The World Stage: Brazil
April 4 – May 30, 2009
Opening Reception Saturday, April 4th, 6 – 8pm

ROBERTS & TILTON
5801 Washington Boulevard
Culver City, California 90232
T 323.549.0223

[ publicado originalmente na minha coluna na http://www.onspeed.com.br ]

30
jun
08

o jogo, a lady e a vizinha


a industria das celebridades não é tocada por profissionais, mas também não é para principiantes. entre flashs, assessorias, paparazzis, jornalistas, alpinistas, notas, notinhas, capas e contra-capas, existe seres humanos?

para simples mortais, as revistas transformam-se na visão dos sonhos que não são necessariamente deles, mas que lhes fora imposto.

para grande parte dos celebres, é o lago de eco onde, como narciso, se apaixonam e não cansam de contemplar ou odiar a própria imagem.

e é o ganha pão de uma classe de comensais, que vive das migalhas da rotina de pessoas como a mulher melancia, que ontem era manchete de 4 das 5 notícias mais lidas do portal globo.com

“a mídia é igualzinha a língua da vizinha”, cantou o poeta novo baiano. é a grande verdade: a boca do inferno, o veneno da madrugada, o falar da vida alheia existe desde que existem as vizinhas. só muda a amplitude e as cifras. o jogo é o mesmo.

e, como disse, saber jogar esse jogo não é para principiantes. a pessoa que melhor soube jogar o jogo da mídia, morreu num túnel, perseguida pelos mesmos paparazzis que alimentou a vida inteira. no final, morta, entrou para a eternidade. seria este o premio e o preço mais alto da fama?

este jogo é como a máfia: uma vez dentro, não há como sair. e se todos terão seus 15 minutos de fama como previu warhol, estamos também todos juntos na mesma arapuca.

conselho de quem não é famoso, não vive disso, mas de alguma forma vive isto: não acredite no que lê sobre você ou sobre os outros. não responda. não reaja. não entre na loucura. não alimente a fera.

se for jogar – como eu jogo – faça consciente dos riscos, das perdas e ganhos, como quem aposta alto numa mesa de pôquer.

e mesmo que todos te afirmem o contrário, não acredite que você é, ou deveria ser, o que está escrito somente porque está escrito.

lembre-se sempre de quem você é ou deveria ser.

porque no final é isto que está em jogo.

.

18
maio
08

arte, encontros e o amor eterno

conheço tudo de jorge, mas nunca li zélia.

conheci zélia, e nunca vi jorge.

era estudante e ela foi ao colégio para falar sobre literatura. acabou falando sobre o que a literatura lhe proporcionou.

mais do que fama, reconhecimento, dinheiro ou realização, a arte proporcionou a zélia encontros.

sartre e simone de bevoir conheceram o brasil a seu convite. caymmi, verger, carybé, di cavalvanti… todos frequentaram a casa do rio vermelho.

em defesa a fundação casa de jorge amado, joão ubaldo disse: “gil, sem jorge você talvez fosse apenas uma hipotese…”

foi num jantar com neruda que zelia e jorge começaram a namorar.

a arte e a arte dos encontros.

o melhor é que apesar da convivência com as mentes mais importantes da arte e da cultura do século passado, para zélia só havia jorge, e para jorge só havia zélia.

não acredito num amor diferente do que habitou a casa do rio vermelho. como escreveu nelson “todo amor é eterno. se não é eterno, não era amor.”

hoje zelia e jorge podem desfrutar da eternidade.

29
mar
08

40 | 60


não consigo me imaginar aos 60.

durante toda a minha vida achei que por um ou outro motivo não chegaria aos 40. sempre que falava isso minha mãe tinha calafrios e meus irmãos sorriam. eu achava bonito ter essa certeza “profética”, e no fundo achava comodo não durar tanto tempo.

se eu não chegasse aos 40, não teria de me preocupar com aposentadoria. o que significa torrar ainda jovem tudo que se ganha. significa não ter de parar aos poucos, significa frear de uma vez só, a qualquer momento. dizia (e as vezes ainda digo) com o peito cheio: – quem garante que estarei vivo amanhã?

talvez por trás disso tudo, mais do que o medo de morrer, havia o medo de viver.

Estou falando de mim e a intenção era falar dos stones.

terça-feira fui assistir a pré-estréia do filme ” shine a light”, de martin scorcese sobre os rolling stones. fui com solari, uma das pessoas mais legais que conheci recentemente. cheguei com todas as expectativas e ao mesmo tempo com nenhuma. tinha visto um trailler que era mais engraçado do que esclarecedor. por outro lado um filme de martin scorcese por pior que seja não deve ser de se jogar fora.

por uma ou por outra, sai do cinema fascinado. o filme é a gravação de um show intimista dos stones – sem grandes palcos ou grandes públicos – filmado por 16 cameras manejadas por 16 técnicos ganhadores do oscar, e editado e dirigido por martin scorcese. estrelas de um lado e estrelas do outro.

nos primeiros minutos o grande mistério era procurar entender qual o corte que scorcese queria dar aquele espetáculo. qual a sua intenção. por qual ótica ele queria nos mostrar os rolling stones. o mistério não durou muito.

scorcese nos coloca no palco e na platéia ao mesmo tempo. podíamos ver todas aos rugas de mick jagger enquanto tentávamos nos desviar da pessoa da frente. ficávamos cegos com a luz ao mesmo tempo que podíamos ver a cumplicidade no palco. não sabia se as palmas eram da plateia do cinema ou da engenharia de som do filme (produzido para cinemas IMAX). destaca a dimensão humana dos gênios e por isso mesmo os faz ainda mais geniais.

eu pessoalmente, um ocioso convicto, me impressionei mesmo com o folego. mais do que com a energia, tesão, vocação, carisma, etc… o que tirou meu sono foi o folego.

os sujeitos passam a vida entregues a drogas, orgias, bebidas e tudo o mais que a criatividade humana pode oferecer… tudo que me repetiram o tempo inteiro para não fazer, eles provavelmente já fizeram em excesso. e cá estou eu, pensando em não chegar aos 40, e eles lá, ricos, trabalhando e vivos aos 60.

o segredo? um amigo logo disse: – ” dinheiro!” outro palpitou: – ” fazer o que gosta!” . eu acho que é um pouco dos dois.

na mesma semana, outro exemplo: maria bethania


bethania aos 60 não é só mais apaixonante como também é mais sensual do que aos 20. na quinta-feira fui ao seu show com omara portuondo, uma cubana também muito sensual aos 70, e fiquei impressionado não com a energia ou o folego, mas com a intensidade. tudo em bethania é intenso. é entrega. é gana. nela ainda vive o carcará.

não foi o melhor show de bethania que já vi. talvez tenha sido o pior. mesmo assim foi lindo. e foi intenso. a riqueza do show de maria bethania está nos detalhes, na luz, no cenário – que docemente cafona como a américa latina, para mim foi o grande destaque.

o sucesso e a longevidade de personalidades aparentemente tão diferentes nos mostra que o mais importante não é necessariamente como se leva a vida – seja ela com fé ou com drogas – mas sim o que se realiza.

scorcese é de 46, bethania de 43 e mick jagger de 42. omara nasceu em 1930. no palco, bethania já não era aquela menina de santo amaro. assim como mick jagger também não era mais aquele. ambos tinham a força, o folego, a energia e a maturidade que só o tempo e o sucesso traz.

e de repente desejei estar ali, me sentir naquela plenitude. e uma semana em são paulo talvez tenha resolvido o que algumas terapeutas tentaram em vão.

ainda não consigo me ver aos 60, mas pelo menos já sei como quero estar.

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09
dez
07

Cultura, Mercado e Exemplo



Há 2 anos optei por pautar minha vida e minha carreira pela cultura.

Muitos acham loucura a possibilidade de trocar uma potencial carreira na comunicação pela vida de produtor cultural. Eu também acho. Vou em busca de sonhos, mas não tenho vocação para Don Quixote tupiniquin e muito menos para ser um eterno produtor cultural com centenas de projetos não realizados numa mão e dividas na outra. Meu foco é ter sucesso, meu tesão é realizar.

Ressalva feita, pontuo: vejo na produção cultural brasileira uma real oportunidade de fazer dinheiro.

A publicidade acabou, ninguém acredita mais nos comerciais de 30 segundos, que no futuro próximo terão função meramente informativa e sobrevida garantida apenas pela repetitiva comunicação de varejo. Uma comunicação que, vista como um todo, destrói marcas muito mais do que constrói. Enquanto não se consolida como commodity, a sua veiculação segue, e a ainda vai seguir um tempo, por inércia e comodismo.

As marcas já não querem mais propaganda – buscam verdade, buscam conteúdo. Conteúdo ligado à marcas através dos mais variados meios, textos e contextos – eventos, blogs, cinema, teatro, internet, ipod, celular – isto é a nova publicidade. E se cultura é conteúdo, hoje conteúdo é dinheiro.

A cultura tem que entrar no mercado e abandonar o hábito assistencialista que a acompanha no Brasil desde sempre. As leis de incentivo são importantes, mas não podem criar dependência. Antes se falava de artistas independentes, e hoje o que existe são artistas dependentes. A lei Rouanet é o bolsa família desses artistas, e vai se tornando cada vez mais difícil viver sem ela.

Pode parecer uma blasfêmia, mas projetos culturais podem sim trazer resultado comercial para seus clientes sem perder sua essência. A arte sempre viveu do mecenato – agora vamos viver a era do mecenato das marcas. Trocar os Medicis pelos anunciantes.

Tanto publicitários quanto produtores culturais têm de aproveitar esta oportunidade e mudar a atitude para não ter que mudar de ramo.

É comum ao produtor cultural pedir patrocínio como quem pede ajuda, como quem pede uma esmola. Isso está no sangue e no discurso. Acredito que patrocínio não se pede, por outra – se oferece. Se oferece por que tem valor, porque o projeto é imperdível, porque se você não comprar, seu concorrente irá fazê-lo. Porque é um negócio e não caridade.

Projetos culturais devem ser embalados para presente e transformados em produtos. Só serão viáveis comercialmente se puderem demonstrar claramente o retorno que dão aos seus patrocinadores. Não basta contar com a mídia espontanea, um retorno mínimo de mídia deve ser garantido. Como conteúdo, deve se adaptar e se espalhar como vírus por todas as novas plataformas disponíveis – da internet ao iphone. Utilizar de forma inteligente o long tail da mídia de massa a favor. E faturar ainda mais com o licenciamento do conteúdo para a tematização de produtos e serviços.

Que fique claro: não estou aqui defendendo a merchandisingtização das produções culturais. Longe disso. Esse seria o caminho simples. Ao invés das marcas invadirem o conteúdo, a oportunidade está exatamente no oposto – no conteúdo permear e abraçar o universo de cada marca.

A produção tem que se tornar uma febre. Febre como o espetáculo Equus, sucesso desde 1972 e que movimentou o mundo com sua ultima montagem em Londres. Febre como o Afroreggae, como a trilha de Lisbela e o Prisioneiro que liderou as paradas dos rádios e do download de ring tones, como Irma Vap que passou anos em cartaz e como Tropa de Elite, que transviou o mercado e usou da pirataria – a internet do pobre – para se tornar febre nacional.

Todas as áreas têm seus modelos, seus visionários. E no topo da nova produção cultural brasileira está Monique Gardenberg. Ela é a sintese, o modelo e o espelho otimista do futuro da cultura no país. A cultura que já deu certo. A cultura que ganhou o mercado.

Seu nome é sinônimo de qualidade e de retorno. Neste ano conseguiu o que parecia impossível e aumentou ainda mais o nível do melhor festival de musica do Brasil, do roteiro à direção, produziu “” Ó paí ó”, um dos maiores sucessos do cinema nacional, que em 2008 vai para televisão, dirigiu o show musical mais polêmico dos últimos anos com Ana Carolina e ainda outros espetáculos nem um pouco superficiais e ainda assim comerciais, como “os sete afluentes do rio ota”, com 5 hs de duraçao, sucesso de publico e crítica.

Monique Gardenberg e a Dueto é a prova de que é possível ter sucesso com produções de qualidade no Brasil. A prova de que o mercado cultural brasileiro ainda tem muito a oferecer para quem o explora com competência e dignidade.

Fico feliz em constatar que os caminhos estão abertos e que o futuro, como não poderia deixar de ser, está na arte, na cultura e no conteúdo.




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