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25
ago
09

GiLuminoso

gil

A única coisa melhor que descobrir um disco,
é redescobrir uma disco.

Em 2006, num desses carnavais de salvador, recebi junto com os convites para o expresso 2222 o então disco novo de Gil. chamava-se GiLuminoso. Na época adorei o nome do disco, o cuidadoso encarte da biscoito fino com fotos de Mario Cravo Neto e o fato de ser um álbum voz e violão. Algo que parece obvio para um artista que não precisa de mais recursos do que isto para fazer um concerto, mas que até então no caso de Gilberto Gil era inédito.

De todas as músicas, naquele instante gostei de cérebro eletrônico, que conheci com Marisa e que nesse disco ganhou um arranjo inesquecível. Gravei o disco no itunes, e me esqueci dele. Aliás, o itunes tem dessas coisas: – ao nos permitir ouvir apenas as faixas, através de seleções ou playlists, faz com que a gente se esqueça do todo que é o álbum. E ai ouvimos “tomorrow never knows” e esquecemos de “revolver”, ouvimos “come as you are” e esquecemos de “nevermind”, ouvimos “os alquimistas estão chegando” e esquecemos da “tábua de esmeralda”. Sem muito cuidado, fiquei com o “cérebro eletrônico” e esqueci do GiLuminoso.

Só que de uma forma ou de outra, sempre acabava por voltar a ele.

Gosto de montar repertórios e trilhas sonoras, seja para programas de televisão, peças de teatro, uma festa qualquer ou para minha própria vida. Tornou-se um habito, quase uma terapia, buscar as músicas ideais para cada momento. E anos depois daquele carnaval de 2006, numa madrugada em Los Angeles, eu estava com o refrão “preciso aprender a ser só” na cabeça, e não conseguia achar a melodia. Imaginei que pudesse ter essa música no meu computador e digitei as palavras no itunes. Eis que como num passe de mágica elas se re-arrumam numa forma que para mim fez muito mais sentido: “eu preciso aprender a só ser”, Gilberto Gil, GiLuminoso. Deixei o disco tocar.

Naquela noite eu estava ali, mas minha mente estava em outro tempo, passado ou futuro, em outro momento, que virtualmente não existia. E já na segunda-faixa, Gil me lembra que “o melhor lugar do mundo é aqui e agora”. uma música gravada em 77, Refavela, mas que fazia todo sentido para mim naquela noite de 2009. A faixa seguinte, Copo Vazio, gravada anteriormente por Chico, me diz que “é sempre bom lembrar que um copo vazio esta cheio de ar”. Nada é tão superficial ou vazio como pode parecer, e aquele álbum tinha ainda mais coisas para me dizer.

Como quem está num retiro espiritual, descubro a importância das coisas banais, aprendo a deixar o seu amor livre para amar, mesmo que, tudo esteja apenas por um segundo (tempo rei). entendo o som da pessoa, e mais que isso: – comprovo que toda pessoa boa, de fato, soa bem.

completamente conectado ao mundo por um computador, percebo que apesar disto não será o cerebro eletrônico que me dará socorro. e nem sei se isso importa, pois se a raça humana é apenas uma semana de trabalho de deus, qual seria o significado da minha existência? não importa. E num mundo de tantas personalidades, nicknames e usuários de redes sociais, Gil nos fala que o divino é saber o que divide o você do mundo do você do ser (você e você).

Aquelas músicas não estavam organizadas por acaso. Ali esta a gênese da espiritualidade de Gil espalhada por diversas músicas de sua carreira. “não se meta a exigir do poeta que determine o conteúdo de sua lata. na lata do poeta tudonada cabe” (metafora), e talvez por isso o disco tenha sido organizado e produzido por um outro, no caso Bené Fonteneles, também responsável pelo livro homônimo gi.luminoso. É dele também a sugestão de que o poeta cantasse distraidamente, como bate o coração (o compositor me disse), voz e violão. Bené conseguiu passar os olhos sobre a obra de Gil e pinçar instantes de luminosidade, executados por gil com paz e espírito, montando um álbum de fato capaz de nos elevar espiritualmente, um álbum de fato: – luminoso.

Agora, quase 4 anos após o lançamento, Gil Luminoso vira o tema do show de sua nova turnê, quando Gil esta no palco da forma mais simples possível, acompanhado apenas do seu violão e do seu rebento, Bem. Não vi o show ainda, mas tudo indica que seja uma aula musicada de espiritualidade, pois só através da música aprende-se com o coração.

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21
out
08

banda.larga

[ gil tocando lennon ]

não lembro do meu primeiro contato com a obra de gil.

acho que fui ouvindo enquanto vivia, e como tantas coisas que a gente conhece desde sempre, desde sempre de alguma forma fez parte do meu habitat, do meu universo. portanto, apesar de sempre presente, o início da relação não foi em si marcante.

lembro quando conversei com ele a primeira vez. num desses carnavais, fui parar num almoço na casa dele a convite de preta, hoje grande amiga. eu tinha chegado mais tarde, me servi e sentei só numa mesa nem perto, nem longe do burburinho. depois sentou mais alguém, depois sentou gil.

admiro pessoas que sentam despretensiosamente na mesa com outras pessoas que não conhecem, mesmo que na própria casa. nos cumprimentamos, trocamos algumas palavras, nada demais, mas para mim foi muito especial.

o mundo gira, a vida dá os nossos passos, e hoje estamos tocando juntos com a gege, sua produtora, um projeto bem inspirador de conteúdo livre para o carnaval. projeto totalmente inspirado em sua vida e em seu discurso.

quando tiver tudo mais certo coloco os detalhes e resultados aqui.

essa semana ele estréia seu show banda larga em são paulo.

estarei lá!

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19
abr
07

Mais Gil e Jorge


De Gil sobre Jorge:

“É, Jorge Ben é para mim uma espécie de mestre. Eu tenho muitos mestres mas ele é um mestre em exercício, mais um pai talvez, à medida que existe muito dele nessa minha vontade de dar nitidez aos matizes das matrizes negras do meu trabalho. Isso aparece nos meus shows quando eu improviso. Um lado assim preto velho que está no meu mundo… minha vó, tias velhas, meu pai. Um vocabulário onde entram palavras nagôs, ditas com aquela guturalidade negra na voz. Fica assim como um reencontro com a minha formação mais primária.”

19
abr
07

Jurubeba

Em 1975, dois negros conscientes de suas raízes, de suas obras, de suas diferenças e semelhanças e fundamentalmente de seus ilimitados talentos musicais juntaram-se despretensiosamente num estúdio.

A gravação aparentemente correu sem tensão ou pretensão, e fomos presenteados com um dos albuns mais humildemente psicodélicos da música brasileira. Típico encontro de Ogum com Xangô: técnica orgânica guiada por pura e inconseqüente emoção.

Esse talento permite 13 minutos de improviso sobre o afoxé “Filhos de Gandhi” e mais 12 min sobre o clássico “Taj Mahal”. Uma riqueza de ritmos, sons e efeitos que precede qualquer tecnologia sampleadora.

Não sei se o album chegou a ter sucesso comercial. Possivelmente não. Não importa, sem duvida o objetivo não foi esse.

“Gil e Jorge” é o registro mais naturalmente fiel do dialogo negro nagô entre Rio e Bahia. Dialogo este que só poderia acontecer entre Ogum e Xangô, entre Gilberto Gil e Jorge Ben.

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