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20
jun
08

são paulo

Soneto Sentimental à Cidade de São Paulo

Ó cidade tão lírica e tão fria!
Mercenária, que importa – basta! – importa
Que à noite, quando te repousas morta
Lenta e cruel te envolve uma agonia

Não te amo à luz plácida do dia
Amo-te quando a neblina te transporta
Nesse momento, amante, abres-me a porta
E eu te possuo nua e frígida.

Sinto como a tua íris fosforeja
Entre um poema, um riso e uma cerveja
E que mal há se o lar onde se espera

Traz saudade de alguma Baviera
Se a poesia é tua, e em cada mesa
Há um pecador morrendo de beleza?

Vinicius de Moraes

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[ para aliviar o último post ]

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15
jun
08

falta do morar


Logo que sai de São Paulo na primeira tentativa na cidade, costumava repetir: – “essa história de ‘morar’ é coisa do século passado. O negócio agora é circular”. E completava: “em tempos de home office, para quê fixar residência se posso passar uns dias em São Paulo na casa de meu irmão, outros em Recife com meus pais, outros no Rio com meu irmão carioca, outros em Salvador na casa original e ainda em Lisboa, na casa do irmão mais novo?” E assim justifiquei minha saída de sampa, o retorno a Salvador e os finais de semana no Rio.

“Cuidado com o que desejas, pois poderás ser atendido” diz o proverbio judaico.

Acabo do voltar para casa, depois de um período meio insólito, quando estive em 3 outros lares que considero meus também. Em 3 cidades diferentes. E minha vida tem sido assim desde que voltei a morar mais tempo em São Paulo. Estou aqui, mas ao mesmo tempo não estou.

Acho que não moro em São Paulo.

Morar é diferente de estar. Morar pressupõe hábito, rotina, conforto, tranqüilidade… por outra, morar significa ter referências. Não referências quaisquer, mas referências seguras. O mercado da esquina, a locadora de filmes, o zelador, a academia, o grupo de amigos, a boêmia e a não boêmia. Enfim, a vida além do trabalho.

Morar também é ser a referência. Entrar num restaurante e conhecer garçons e clientes, estacionar o carro e confiar no flanelinha, receber ligações, convites, estar presente nos aniversários e datas importantes de amigos e familiares. Enfim, morar é estar sempre ali. E uma coisa que não acontece comigo é estar no mesmo lugar sempre.

Voltando a fatídica sabedoria judia, meu desejo tornou-se realidade, e hoje não moro em lugar nenhum.

Não sei onde vou nem onde quero morar, sei somente que sinto falta do morar.

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28
out
07

Sampa Revisited


“Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui…

Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, que aqui voltei,

E aqui tornei a voltar, e a voltar.

E aqui de novo tornei a voltar?

Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,

Uma série de contas-entes ligados por um fio memória,

Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo,

Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.”

Alvaro de Campos.

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